Imigrantes são cruciais para a inovação

Universitários estrangeiros participaram da criação da maioria das últimas patentes registradas nos EUA, que têm dificultado a permanência dos alunos após suas formaturas

É JORNALISTA , ANDREW, MARTIN, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA , ANDREW, MARTIN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h04

Apresentando razões contra a atual política de imigração, que obriga jovens inovadores nascidos no exterior a sair dos Estados Unidos, um novo estudo, divulgado na terça-feira, mostra que os imigrantes contribuíram para mais de três entre quatro patentes nas principais universidades de pesquisa do país.

Realizado pela Partnership for a New American Economy (Parceria para uma Nova Economia Americana), um grupo sem fins lucrativos que tem entre seus fundadores o prefeito Michael Bloomberg, de Nova York, o estudo observa que quase todas essas patentes estão nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática, os chamados campos Stem - considerados fundamentais para o crescimento do emprego.

O relatório constata que, enquanto muitos dos mais destacados inovadores do mundo estudaram em universidades americanas, depois que esses estrangeiros se formam, enfrentam nos EUA "obstáculos desencorajadores ou intransponíveis que os obrigam a partir e a levar seus talentos para outros lugares".

A Partnership for a New American Economy divulgou em maio um documento afirmando que outras nações atraem agressivamente seus cidadãos, donos de importantes especializações, que se estabeleceram nos EUA, instando-os a voltar para seus países de origem. A entidade é a favor de uma legislação que torne mais fácil para estrangeiros diplomados e empreendedores permanecer nos EUA.

"Agora que sabemos que os imigrantes são responsáveis por mais de três de cada quatro patentes das principais universidades, as leis federais que mandam de volta tantas dessas pessoas inovadoras para seus países de origem nos parecem extremamente equivocadas", disse o prefeito Bloomberg em um comunicado.

Entretanto, alguns temem que essas ideias para a reforma da lei de imigração prejudiquem trabalhadores americanos igualmente especializados e não consigam resolver problemas mais abrangentes com a política imigratória.

"Ninguém está se perguntando quais são os interesses do trabalhador americano", disse Eric Ruark, diretor de pesquisa para a Federation for American Immigration Reform (Federação pela Reforma da Imigração nos EUA), uma organização sem fins lucrativos que defende a redução do fluxo imigratório no país. "Isso é o melhor para os empregadores. Não é que os trabalhadores estrangeiros não sejam especializados. Mas nós já temos uma força de trabalho nacional que tem as mesmas especializações."

O estudo mais recente procura quantificar os custos potenciais das políticas de imigração por meio da revisão de 1.469 patentes de 10 universidades que, no ano passado, haviam obtido o máximo reconhecimento.

Entre as instituições estão a Universidade da Califórnia, Stanford e o Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Segundo o estudo, as patentes representam um parâmetro sobre o nível de inovação de um país - e uma importante maneira para que os EUA ocupem uma posição de ponta nos campos de conhecimento Stem.

Num dos exemplos sobre o assunto, o estudo observa que pelo menos um inventor de nove entre dez patentes da Universidade de Illinois, em 2011, nasceu no exterior. E, em 64% desses casos, o inventor estrangeiro ainda não era professor, mas estudante, pesquisador ou integrante de pós-doutorado, um grupo mais propenso a ter problemas com a política de imigração americana.

Algumas das patentes analisadas pelo relatório resultaram na criação de empresas. Wenyuan Shi, professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, obteve uma patente por ter inventado um ingrediente que, acrescentado a um pirulito desenvolvido por ele, atua como auxiliar no tratamento dos dentes das crianças. Shi, nascido na China, criou uma companhia para a comercialização de suas invenções.

As leis atuais sobre imigração podem dificultar a permanência nos EUA de estudantes nascidos no exterior depois de suas formaturas. Além disso, é possível que os empregadores mostrem-se mais cautelosos em relação à contratação deles, pois os green cards, que permitem a uma pessoa residir no país de maneira permanente, são limitados e o processo para a sua obtenção é muito complicado e caro.

Pelo sistema atual, os estudantes nascidos no exterior podem permanecer nos EUA por um período de 12 a 29 meses depois de se formarem, desde que encontrem um emprego ou façam um estágio no seu campo de atuação.

Depois disso, é difícil obter vistos que concedam uma permanência maior, que são restringidos por fatores como cotas concedidas para cada país. O estudo observa que a China tem direito ao mesmo número de vistos da Islândia.

O dr. Ashlesh Murthy, indiano, veio para os EUA em 2001 para fazer um curso de mestrado em biologia molecular na Universidade do Texas, em San Antonio. Trabalhando com seus professores, ele desenvolveu uma vacina para a clamídia, doença sexualmente transmissível, e obteve essas patentes em 2011 e 2012.

No entanto, Murthy enfrentou um verdadeiro labirinto burocrático para continuar nos EUA e, a certa altura, teve de permanecer mais de um mês na Índia, pois funcionários americanos naquele país duvidavam de um visto que lhe fora previamente aprovado.

Observando que os membros de sua universidade chegaram a apresentar uma solicitação a um membro do Congresso para que os legisladores interviessem em seu favor, Murthy disse: "Se eu não estivesse numa posição na qual eles realmente querem a minha presença, duvido que pudesse voltar aos EUA". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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