Imigrantes se arriscam para entrar na UE

Entre janeiro e setembro, 7,2 mil pessoas conseguiram passar as barreiras impostas pela Agência Europeia de Vigilância de Fronteiras

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, NADOR, MARROCOS, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h10

Mesmo com o agravamento da guerra civil na Síria, a União Europeia bloqueou o acesso de imigrantes ilegais pela rota Mediterrânea Oriental, o principal ponto de passagem de quem emigra da Ásia Central e do Oriente Médio em direção ao solo europeu. Entre janeiro e setembro de 2013, 7,2 mil pessoas conseguiram passar as barreiras impostas pela Agência Europeia de Vigilância de Fronteiras (Frontex). Em 2012, 22,3 mil haviam feito o mesmo trajeto.

A rota Mediterrânea Oriental é um exemplo de como a União Europeia vem tentando se organizar para impedir o ingresso de imigrantes ilegais no bloco. No domingo, reportagem do Estado mostrou que os incidentes envolvendo a morte de estrangeiros às portas da Europa, como o naufrágio na costa italiana que deixou mais de 350 mortos em 3 outubro, são fruto da política de fechamento da entrada legal de estrangeiros no Espaço Schengen, a área de livre circulação de pessoas do bloco.

Os dados da Frontex indicam a queda brutal da entrada na Europa pela rota Mediterrânea Oriental, mas também demonstram que todo o esforço de fiscalização das fronteiras não foi suficiente para frear a imigração ilegal para o interior do continente. Entre janeiro e setembro de 2013, um total de 34,5 mil estrangeiros conseguiram burlar os sistemas de vigilância, alcançando o território europeu por uma das oito rotas conhecidas. No mesmo período de 2012, haviam sido 36,7 mil.

O problema é que, com o aumento da vigilância em aeroportos, portos e passagens terrestres, a alternativa encontrada por imigrantes vindos da África, do Oriente Médio e da Ásia tem sido assumir riscos. Na rota dos Bálcãs, por exemplo, um número crescente de imigrantes - 2,9 mil em 2012 e 4,1 mil em 2013 - se arrisca a cruzar o Rio Evros para tentar ir da Turquia para a Grécia. O mesmo acontece nas travessias pelo Mar Mediterrâneo, feita por barcos que partem lotados da Líbia ou da Tunísia em direção à Ilha de Lampedusa, na Itália. No ano passado, 3,4 mil imigrantes escolheram a passagem via mar; 6,4 mil fizeram a opção neste ano. Os "passadores" cobram entre € 2 mil e € 3 mil por pessoa para realizar o percurso, que não raro resulta em naufrágios.

O reforço do policiamento e o aumento dos muros, grades e arames farpados também não reduziu a passagem nos enclaves espanhóis de Melilla e Ceuta, junto ao Marrocos, na África. Foram 2,52 mil em 2013, contra 2,51 mil em 2012.

A diferença é que o número de mortos e feridos vem aumentando, segundo indicaram ao Estado ONGs que auxiliam imigrantes na região. Testemunhos de quem tenta passar a fronteira revelam o mesmo trágico destino de muitos dos que tentam saltar as barreiras. "Na última vez em que tentei passar, 80 ou 90 conseguiram pular as grandes, mas eu vi 3 cadáveres", conta Moktar Bah, de 18 anos, natural de Gao, no Mali, país que passa por uma guerra entre tropas francesas e da ONU contra grupos jihadistas.

Para chegar ao destino, Bah deixou o Mali em 2010 e passou por Burkina Faso, Níger, Nigéria, Níger de novo, Líbia, Argélia e Marrocos, onde ficou meses abrigado na floresta de Gourougou, antes de conseguir ingressar em Melilla, no território espanhol, pulando as três barreiras de arames farpados, resistindo ao gás lacrimogêneo e driblando a segurança espanhola. "Deus me ajudou, porque eu só quero trabalhar."

Barry Amadou, 20 anos, natural de Guiné Bissau, confirma que os africanos, por exemplo, vão continuar arriscando a vida para passar as barreiras impostas pela União Europeia para chegar a Melilla, como ele fez em 11 de outubro. "Está cada vez mais difícil, mas meus colegas não vão desistir", garante.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.