AP Photo/Rodrigo Abd
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Imigrantes usam caravana para fugir de contrabandistas

Refugiados da América Central que rumam para os EUA preferem viajar em grupo para evitar extorsões e ataques do crime organizado

Kevin Sieff, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2018 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - Para muitos dos imigrantes que viajam para os EUA, através do México, a decisão de se juntar à caravana não foi só uma reação à violência ou à pobreza na América Central. Marchar em grupo foi a alternativa encontrada para caminhar por uma das rotas de contrabando humano mais caras e mais perigosas do mundo.

Todos os anos, quando dezenas de milhares de pessoas da América Central vão para os EUA, viajam através de uma rede de contrabandistas ou coiotes, cujos preços aumentaram na última década, à medida que grupos criminosos se envolviam cada vez mais no comércio e a segurança das fronteiras era reforçada. Segundo relatório do ano passado do Departamento de Segurança Interna dos EUA, uma viagem que custava US$ 2 mil, em 2008, saltou para US$ 9,2 mil, em 2017.

Então veio a caravana: uma viagem para a fronteira oferecida gratuitamente, prometendo segurança em números e atenção do público. “O custo de oportunidade para os migrantes é o dinheiro e o que pode acontecer com o seu corpo”, disse Andrew Selee, presidente do grupo de estudos Migration Policy Institute, de Washington.

“Eu nunca teria como pagar um contrabandista, mas assim posso conseguir chegar sem ter de pedir uma quantia enorme emprestada”, disse Esme Castañeda, de 30 anos, de Ocotepeque, Honduras, que viaja com o marido, Francisco, e com a filha de 5 anos, Elizabeth.

Em toda a região, muitas famílias poupam durante anos para pagar um contrabandista ou fazem empréstimos, às vezes perdendo suas casas no processo. Esses pagamentos prometem, em teoria, uma série de abrigos seguros no México e três oportunidades para cruzar a fronteira dos EUA. 

“São pessoas dispostas a sair a qualquer momento quando houver a possibilidade de viajar com segurança”, disse Guadalupe Correa-Cabrera, especialista em imigração e contrabando humano da George Mason University. “Mas eles sabem que, se você realmente quiser cruzar, precisa pagar um contrabandista.”

As caravanas atravessaram o México por vários anos, mas normalmente em números muito menores - e atraindo muito menos atenção - do que o grupo atual. Os organizadores disseram que a viagem foi planejada em parte como um ato de protesto. Muitos imigrantes, porém, encaram isso como outra coisa: a maneira mais segura e menos dispendiosa de migrar para o norte.

Chegar à fronteira dos EUA sozinho nem sempre foi tão perigoso. Em 2008, quando o então presidente do México, Felipe Calderón, tentou derrotar os narcotraficantes usando os militares, os cartéis se fragmentaram e, no nordeste do México, grupos armados se envolveram no contrabando humano. Isso e o endurecimento da vigilância causaram um aumento nos custos e riscos da travessia.

Essas mudanças reduziram o número de pessoas que poderiam atravessar a fronteira de forma segura. Antes da década de 90, muitos migrantes cruzavam a fronteira sem pagar contrabandistas, trabalhando sazonalmente nos EUA. Mesmo depois de pagar contrabandistas, os imigrantes são extorquidos e agredidos. Em 2010, 72 viajantes foram mortos por pistoleiros em San Fernando, no norte do México. No ano passado, dez imigrantes que viajavam nos fundos de um trailer morreram em um estacionamento de San Antonio, quando a temperatura aumentou e eles ficaram presos.

Alguns dos migrantes na caravana tinham viajado anteriormente com um contrabandista, mas depois de serem deportados, decidiram que não valia a pena o gasto. Evin Mata viajou com um coiote alguns anos atrás. Mas, depois de ser deportado, ele se perguntou se um contrabandista valeria o pagamento antecipado. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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