Jabin Botsford/W.Post
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Imigrantes usam serras para atravessar muro de Trump na fronteira com México

Pessoas tem feito buracos no muro na fronteira para entrar nos EUA por eles; agora as construtoras devem apresentar planos de como torná-lo menos vulnerável

Nick Miroff, The Washington Post

11 de junho de 2020 | 15h09

A agência de fiscalização alfandegária e proteção de fronteiras dos Estados Unidos pediu às empresas contratadas para a construção do muro idealizado pelo presidente Donald Trump na fronteira com o México que apresentem novos projetos com vistas a tornar mais difícil as pessoas usarem serras para furar partes em aço do muro e entrarem no país, reconhecendo que o projeto atual da barreira que cobre centenas de quilômetros ao longo da fronteira continua vulnerável.

Um novo edital público da agência dá às empresas contratadas o prazo de 12 de junho para oferecerem sugestões de nova tecnologia e equipamentos para impedir a violação e a entrada de pessoas pelo muro, e também convida empresas a apresentarem propostas para “uma construção privada”, permitindo que investidores e ativistas adquiram terra, construam barreiras nela e vendam tudo para o governo.

Trump continua sua campanha com vistas à reeleição com base na promessa de concluir mais de 800 quilômetros de uma nova barreira ao longo da fronteira até o fim de 2020, mas autoridades do governo já reduziram o porte dessa meta nas últimas semanas. O presidente deixou de promover esse muro, ao custo de US$ 15 bilhões como barreira “impenetrável” desde que o Washington Post informou que grupos de traficantes vêm serrando partes da estrutura usando ferramentas elétricas baratas.

Em comunicado, autoridades da agência de fiscalização alfandegária e proteção de fronteiras declararam que seu novo edital - informado primeiramente pelo KJZZ Fronteras Desk, no Arizona - não equivale a um reconhecimento de que o projeto atual do muro é inadequado ou falho.

“Temos um adversário que consegue se adaptar: independentemente dos materiais, nada é impenetrável se houver tempo e ferramentas ilimitadas. Os muros dão à patrulha de fronteiras a possibilidade de diminuir e conter travessias potenciais. Isto significa que o muro irá dissuadir algumas pessoas de cruzarem e enfraquecerá os esforços daqueles que ainda assim tentarão”.

O edital público é a primeira indicação de que as autoridades da agência não acreditam que o projeto do poste de amarração de aço que foi selecionado entre os protótipos apresentados em 2017 seja suficiente para atingir o objetivo. O design original, que consistia de postes de amarração em aço de altura de pouco mais de nove metros com painéis de metal que impossibilitam uma subida, agora será implementado por empresas contratadas particulares em vários locais ao longo da fronteira.

“Este é o mais sofisticado muro de fronteira que já construímos, mas jamais ignoramos ideias inovadoras e criativas para continuar a reforçar os bloqueios na fronteira”, declarou a agência.

Trump deve participar de uma cerimônia em Yuma, no Arizona, na próxima semana, para celebrar a conclusão das primeiras 200 milhas do muro (cerca de 321 quilômetros), segundo funcionários do governo.

A agência de fiscalização alfandegária e proteção de fronteiras não disse publicamente com qual frequência os traficantes violaram ou tentaram violar a estrutura. Registros obtidos por este jornal por meio do Freedom of Information Act indicam que houve 18 tentativas na área de San Diego num único mês, no ano passado. A área de San Diego tem algumas das barreiras mais temíveis ao longo da fronteira inteira e a construção de um muro com camada dupla está quase completa.

Traficantes, contudo, têm utilizado serras para fazer buracos na estrutura de aço usando ferramentas usadas para demolição. Outros usam escadas improvisadas com vergalhões de ferro para pular o muro.

A agência informou estar em busca de novas maneiras para conter essas atividades. “A agência de fiscalização alfandegária e proteção de fronteiras reconhece que o setor, outras agências e outras entidades privadas podem ter ideias interessantes, inovadoras e úteis que poderão ser implementadas para reformar ou melhorar as capacidades de dissuasão operacionais fundamentais para impedir que as pessoas serrem a estrutura e saltem pelo muro”.

Essas propostas incluem o uso de sensores e câmeras que ofereceriam alertas antecipados das infrações, como também “tecnologia de tinta avançada que aumentaria a capacidade de sensores térmicos reconhecerem pessoas saltando pelo muro e melhoram a detecção”.

Trump mantém um forte interesse na estética e no design do muro e suas preferências mudam repetidamente, o que deixa as autoridades fronteiriças e os engenheiros do Exército com problemas para ajustar tais preferências às operações e às realidades geográficas da fronteira entre México e Estados Unidos.

Nas últimas semanas o presidente novamente insistiu que o muro deve ser pintado de preto, dizendo a seus assessores que assim ele absorverá mais calor do sol, queimando as mãos das pessoas que tentarem subir.

Mas a pintura do muro elevará os custos de construção em pelo menos US$ 500 milhões e muitas pessoas encaram isto com ceticismo, sublinhando que a tinta preta também aumentará os custos de manutenção e que as pessoas que tentarem escalar o muro simplesmente podem usar luvas para proteger suas mãos.

A linguagem usada no pedido de informação da agência sobre “construção por partes privadas” parece especificamente voltada para os esforços do grupo We Build the Wall, liderado pelo ex-assessor de Trump Stephen Bannon, e outros ativistas conservadores, incluindo o candidato ao senado de Kansas, Kris Kobach.

O grupo levantou ou recebeu US$ 25 milhões em doações para construir barreiras em terra particular. E o convite da agência parece ser a primeira indicação de que o governo vem analisando mecanismos para obter e incorporar essas novas partes do muro construídas por particulares nos esforços mais amplos de Trump.

"A agência reconhece que entidades privadas e organizações não governamentais também têm interesse em apoiar a missão de proteção da fronteira, implementando soluções particulares para o muro. Principalmente aquelas partes que podem obter financiamento privado e aquisição privada de terras devem ter interesse em projetar uma estrutura que seja coerente com as especificações do governo”.

O grupo We Build the Wall concluiu duas seções de barreiras privadas no Texas, usando a Fisher Industries, sediada na Dakota do Norte para realizar o trabalho e adquirir a terra. O presidente insistiu para os engenheiros do Exército contratarem a companhia cujo CEO é um conhecido doador de recursos para o Partido Republicano e um incentivador de Trump.

A Fisher Industries obteve um contrato no mês passado no valor de US$ 1,3 bilhão para instalar 67 quilômetros de novas barreiras no Estado do Arizona. O primeiro contrato ganho pela companhia, no valor de US$ 400 milhões, atualmente passa por uma auditoria pelo Inspetor Geral do Departamento da Defesa, a pedido dos democratas que alegam interferência indevida da Casa Branca no processo de contratação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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