Beatriz Bulla/Estadão
Beatriz Bulla/Estadão

Imigrantes vivem domingo de medo à espera de deportações nos EUA

Funcionário do governo americano diz que prisões foram realizadas em pelos menos nove cidades do país, incluindo Baltimore, onde famílias de origem latina se reuniram para uma festa e relataram incerteza e apreensão com a ameaça de Trump

Beatriz Bulla, Enviada Especial a Baltimore, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2019 | 20h59

BALTIMORE, EUA - Comunidades de imigrantes nos Estados Unidos viveram neste domingo, 14, um dia de tensão, à espera da megaoperação de prisão e deportação em massa prometida pelo presidente Donald Trump. Em entrevista à CNN, Ken Cuccinelli, diretor de Serviços de Imigração e Cidadania, confirmou que as detenções haviam começado, embora ativistas diziam que a situação era normal na maior parte das grandes cidades americanas.

Na semana passada, Trump havia anunciado que prisões em massa começariam no fim de semana. O objetivo da Agência de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) seria deportar 2 mil imigrantes em pelo menos dez cidades: Atlanta, Baltimore, Chicago, Denver, Houston, Los Angeles, Miami, Nova York, São Francisco e Nova Orleans - em razão da passagem do furacão Barry, no entanto, as operações nesta cidade teriam sido canceladas

Neste domingo, a festa da comunidade latina de Baltimore, a pouco mais de uma hora de Washington, estava marcada para começar ao meio-dia no Patterson Park. Mas pouca gente apareceu. “As pessoas estão com medo”, afirmou um dos organizadores, Pedro Palomino, dono de duas publicações para os latinos na região. 

O foco das prisões são famílias recém-chegadas aos EUA que já tenham processo de deportação em curso. No entanto, autoridades americanas anunciaram que poderão fazer apreensões “laterais”, além do foco inicialmente previsto pela ICE.

Com o anúncio de que as detenções começariam, o pânico se espalhou entre as famílias de imigrantes. Na sexta-feira e no sábado, agentes da ICE circularam em estações de metrô de Nova York e em bairros de maior concentração de imigrantes. No sábado, segundo relatos de moradores de Baltimore, agentes chegaram a bater na porta de imigrantes, mas não encontraram ninguém. 

No início desta manhã, o principal bairro de imigrantes de Baltimore estava vazio. Quando perceberam que não havia sinal de detenções, as pessoas começaram a sair de casa. Às 13 horas, uma hora depois do previsto, os organizadores do encontro latino resolveram iniciar as festividades. “Estamos aqui para mostrar quem realmente somos”, anunciaram no palco.

María del Cármen assistia à festa no gramado. Há menos de três meses, chegou aos EUA vinda do Equador e ainda não conhece muitos bairros de Baltimore. Os três filhos já estão na escola, mas sofrem para aprender inglês. Ela se emociona ao lembrar da travessia recente, na fronteira do México, e fala pouco sobre a chegada. 

Abraçada à filha mais nova, de 6 anos, ela conta que encarou 15 dias de viagem em busca de uma vida melhor. “Fugimos da violência, das drogas e não tínhamos trabalho no Equador”, afirma. A opção da família foi se apresentar às autoridades de imigração na entrada e formalizar o pedido de asilo - opção considerada mais segura.

Sentada no mesmo gramado, outra María - que pede para não divulgar o sobrenome - está em situação mais difícil. Também vinda do Equador com ajuda de coiotes, há quase 20 anos, vive sem documentos. “Fugimos da pobreza e agora querem nos enviar para ela de volta”, lamenta. Dois dos cinco filhos nasceram nos EUA e todos os quatro netos são americanos. 

Ativistas têm orientado que imigrantes não abram a porta para agentes da ICE, caso eles não apresentem autorização judicial. Ontem, um jornal distribuído em padarias e restaurantes brasileiros de Baltimore, o Brazilian Times, trazia na capa o tema da deportação. O Itamaraty monitora a situação - a área consular já mapeou que há brasileiros que podem ser afetados pela medida, mas ainda não se sabe quantos seriam.

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