Imitar é a forma mais segura de lisonjear

Com reformas que mostram forte influência americana, Pequim não é original, nem mesmo na ideia de criar uma zona de defesa aérea no Pacífico

ISAAC, STONE FISH, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2013 | 02h04

Um diplomata chinês de alto escalão certa vez comparou a China e os EUA a vizinhos. Se a casa da China continuar crescendo, disse ele, os EUA poderão ter de se mudar. No dia 23, o ministro da Defesa da China divulgou um mapa mostrando parte de sua Zona de Identificação de Defesa Aérea (Zida, na sigla em inglês), uma área contestada no Mar do Leste da China, que inclui as Ilhas Diaoyu - uma cadeia de ilhas que o Japão administra e denomina Senkaku. Pequim se diz no direito de monitorar essa área e tomar medidas militares contra aviões que entrem na região.

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, considerou o anúncio da China "perigoso". Os EUA responderam mais diretamente: na segunda-feira, ordenaram o voo de dois bombardeiros B-52 sobre as Senkaku/Diaoyu sem informar Pequim.

A declaração da China sobre a zona é uma inegável provocação (como foi, também, a resposta americana). Mas ela também está, do ponto de vista dos chineses ao menos, alinhada com as normas internacionais de espaço aéreo e de transparência. Os EUA tem uma Zida claramente definida. O site da Administração de Aviação Federal adverte sobre "uso da força" em "caso de desrespeito". O secretário de Estado John Kerry disse que os EUA "não aplicam seus procedimentos de Zida a aviões estrangeiros que não pretendem entrar no espaço aéreo nacional americano". Na segunda-feira, Yang Yujun, porta-voz do ministério da Defesa chinês, respondeu a uma pergunta sobre a "preocupação" do governo americano sobre a decisão da China. "Desde os anos 1950, os EUA e mais de 20 outros países", incluindo o Japão, estabeleceram zonas semelhantes, disse ele. Seria "totalmente irracional" os EUA se oporem a isso.

Desde que assumiu seu cargo, em novembro de 2012, o presidente chinês Xi Jinping instituiu algumas políticas que demonstram uma consolidação do controle do Partido Comunista e uma simplificação da burocracia chinesa. Ele está se inspirando liberalmente na hierarquia institucional e nas melhores práticas do governo americano, implementando uma série de mudanças institucionais que poderiam ser chamadas de reforma americana com características chinesas. Para os que temem que uma China em ascensão venha a desafiar os EUA, isso é realmente preocupante.

Atualmente, as forças militares chinesas estão divididas em sete regiões geográficas, de Guangzhou, no próspero sudeste, a Lanzhou, no instável noroeste. Esse sistema já foi útil, quando a maior ameaça da China vinha da instabilidade doméstica ou de uma guerra terrestre com a Rússia, mas hoje ele é uma maneira ineficaz de projetar poder.

As discussões sobre a reestruturação das forças militares, assim como os planos para criar um Conselho de Segurança Nacional, são anteriores ao governo atual. Mas Xi parecer ter um controle muito maior do que seu antecessor Hu Jintao, e tem se mostrado capaz de fazer avançar essas mudanças. O objetivo, conforme o slogan de Xi, é "travar e vencer batalhas".

E há também um avanço no poderio militar por trás dessas reformas militares em potencial. A China tem um novo bombardeiro de longo alcance que provavelmente pode carregar mísseis de cruzeiro armados com ogivas nucleares, suas empresas aeroespaciais estão desenvolvendo dezenas de drones (aviões não tripulados) e um segundo ou até um terceiro porta-aviões pode estar em obras. Em outubro, a China divulgou fotos e informações sobre sua primeira geração de submarinos nucleares - como o anúncio da Zida, trata-se de um exercício de demonstração de poderio militar. Mas isso não é necessariamente uma coisa ruim. Esse esforço "tem tudo a ver com transparência, e com melhorar suas relações entre militares com os EUA", diz Stephanie Kleine-Ahlbrandt, diretora dos Programas para a Ásia-Pacífico do United States Institute of Peace. Os EUA têm se esforçado para ser mais transparentes sobre suas intenções militares com respeito à China - e ao que parece a China devolveu o favor.

'Plágio'. Estão ocorrendo também outras mudanças que podem refletir um estudo sério nos mais altos níveis da política americana. Pequim está "acelerando esforços para criar versões chinesas dos tribunais distritais americanos e do FBI (a polícia federal americana)", segundo um artigo recente de Wang Xiangwei, editor do jornal de Hong Kong South China Morning Post. E em 25 de novembro, Meng Jianzhu, chefe de segurança doméstica da China, publicou um extenso artigo no qual citou o ex-juiz da Suprema Corte dos EUA, Louis Brandeis, e pediu maior abertura judicial. Há até a introdução por Xi, em novembro de 2012, do "sonho chinês" - "um país próspero e forte, o rejuvenescimento da nação e o bem-estar do povo" - um slogan nitidamente modelado na versão americana.

Durante anos, autoridades da elite de Pequim debateram como aprender com outras grandes potências. Em 2006, por exemplo, o lançamento de um documentário em 12 partes, A Ascensão das Grandes Nações, sobre como países como Portugal, Rússia e EUA construíram seus impérios, provocou um amplo debate sobre como a China deve agir em seu processo de ascensão. A conclusão que Xi parece ter tirado é que os EUA são o melhor modelo para a China. "Ignorar seletivamente normas internacionais ou contornar instituições internacionais quando elas não lhes servem - é um senso de que eles são uma grande potência e podem agir de maneira mais parecida a como percebem os EUA", diz Kleine-Ahlbrandt. "Eles estão observado como as grandes potências instrumentalizam o sistema." Isso não significa que haja algo de particularmente americano no próprio Xi. Claro, ele gostou muito de O Resgate do Soldado Ryan, segundo um despacho divulgado pelo WikiLeaks, e agiu como um político em campanha em Iowa numa visita em fevereiro de 2012 aos EUA.

Mas, como seus antecessores, Xi mostrou pouco apreço pelos ideais americanos de democracia e direitos humanos. Ao que parece, ele não fala inglês, diferentemente de seu antecessor Jiang Zemin, que gostava de citar o Discurso de Gettysburg (com sotaque muito acentuado). E diferentemente de Deng Xiaoping, que vestiu um chapéu de cowboy durante uma visita em 1979 aos EUA, a última visita de Xi foi menos para fotos do que para exibir a nova força da China. Antes de uma cúpula em junho de 2013 com Barack Obama, Xi disse ao assessor de Segurança Nacional Tom Donilon que já é hora de explorar "um novo tipo de relacionamento entre grandes potências" - um que pressuponha a igualdade entre os dois países.

Se os EUA estarão dispostos a permitir esse tipo de equidade, como mostra o voo do bombardeiro B-52, é outra história. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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