LEONARDO MORAIS/ESTADÃO
LEONARDO MORAIS/ESTADÃO

IML recebe um cadáver a cada dois dias

Em 2016, foram localizados os restos mortais de 154 pessoas; nos primeiros sete meses deste ano, já foram 98

Cláudia Trevisan, enviada especial / Tucson, EUA, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2017 | 05h00

TUCSON, EUA - A cada dois dias, em média, o Instituto Médico Legal (IML) de Tucson recebe o cadáver de um imigrante clandestino encontrado no Deserto do Arizona. Às vezes, são corpos intactos. Outras, em estado avançado de decomposição. Também chegam esqueletos ou ossos de estrangeiros que morreram há mais de um ano.

Em 2016, foram localizados os restos mortais de 154 pessoas. Nos primeiros sete meses deste ano, já foram 98. Se o ritmo for mantido, o total de 2017 vai superar o de 2016, estimou Gregory Hess, chefe do IML do Condado de Pima, onde Tucson está localizada. 

O risco de um imigrante morrer na travessia é hoje quase quatro vezes maior do que no ano 2000, quando o número de corpos encontrados pela Patrulha de Fronteira começou a subir. Naquele ano, 1,64 milhão de pessoas foram apreendidas tentando entrar nos EUA a partir do México, o maior número desde que o registro foi criado. No mesmo período, foram encontrados cadáveres de 380 imigrantes, o que significava 2,38 mortes para cada grupo de 10 mil pessoas.

“A estratégia dos EUA foi empurrar a migração para áreas cada vez mais perigosas, o que levou a um aumento no número de mortes em relação ao de travessias”, disse John Fife, que em 2000 iniciou um projeto de distribuição de água nas trilhas usadas pelos imigrantes no deserto. “No Arizona, o risco de morte na travessia hoje é cinco vezes mais alta do que há 17 anos”, afirmou Fife, que aos 77 anos é uma referência para ativistas.

No fim dos anos 90, os EUA começaram a construir cercas nas áreas urbanas que eram usadas pelos que cruzavam a fronteira. O movimento se intensificou depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o que empurrou os imigrantes para regiões cada vez mais inóspitas e isoladas, como o Deserto do Arizona, onde estavam as rotas usadas por narcotraficantes.

Isso mudou a natureza da indústria de travessias. As famílias de “polleros” que levavam pessoas de suas comunidades foram substituídas pelos coiotes, que em pouco tempo passaram a responder aos cartéis de drogas. A consequência foi o aumento dos casos de extorsão, violência, estupros, tortura e assassinatos. “Os imigrantes sabem que é perigoso. Se eles vêm mesmo assim é porque estão desesperados”, observou Everard Meade, diretor do Trans-Border Institute da Universidade de San Diego, na Califórnia. 

O perfil dos que entram nos EUA também mudou, com menos mexicanos e mais imigrantes que fogem da violência na América Central. Há dez anos, os mexicanos representavam quase 90% dos que entravam ilegalmente nos EUA. No ano passado, o porcentual caiu para 50%.

Prisões em alta

Houve 408 mil apreensões e 322 mortes no ano fiscal de 2016, que vai de outubro a setembro. Entre outubro de 2016 e julho de 2017, as apreensões somaram 259 mil, uma redução de 22% na comparação com igual período do ano anterior. 

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