Mohammed Abed/ AFP
Mohammed Abed/ AFP

Imobilismo manterá impasse e violência entre israelenses e palestinos como antes; leia análise

Nova onda de violência deve forçar americanos e comunidade internacional a agir, fazendo com que o conflito aberto termine logo, mas os fatores que têm bloqueado o avanço das negociações devem permanecer

Gunther Rudzit*, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2021 | 12h00

A nova explosão de violência entre israelenses e palestinos se deve a algumas situações de imobilismo, principalmente, a política. Desde os Acordos de Paz de Oslo de 1993, israelenses e palestinos vêm discutindo a criação de dois Estados. Porém, por motivos internos e externos, esta proposta não se concretizou após quase três décadas. Assim, grupos de ambos os lados que se beneficiam politicamente deste impasse, apoiando ou incentivando momentos de violência a fim de manterem o seu status quo político.

Do lado palestino, desde 2007 com a tomada do poder na Faixa de Gaza pelo Hamas, há na realidade dois governos, uma vez que o líder da Fatah, Mahmoud Abbas, dissolveu o governo de união e decretou estado de emergência. Desde então, há a promessa de novas eleições que nunca se concretizam. Esta realidade faz com que o ressentimento cresça entre os jovens palestinos. Os dados de 2017, mostram que a população palestina era de 4,9 milhões, sendo que, aproximadamente 58% tinha menos que 24 anos.

Há uma geração que cresceu ouvindo a promessa de um Estado próprio, mas que nunca chega. E que se organiza em redes sociais, sem depender da Autoridade Palestina. Portanto, se torna muito difícil conseguir uma negociação a fim de se voltar a uma situação mais calma.

Do lado israelense, uma plena democracia, há um impasse político, materializada em quatro eleições gerais em dois anos e a não formação de um novo Gabinete. Hoje o Parlamento tem 13 partidos, com a maior bancada do Likud, com 30 assentos, seguido pelo Yesh Atid, oposição, com 17 assentos. O restante varia entre 9 e 4 deputados, uma fragmentação muito grande.

Por isto, o primeiro ministro Binyamin Netanyahu tem precisado buscar apoio em pequenos partidos religiosos e de extrema-direita, contrários à concessão dos territórios aos palestinos, além de apoiarem a expansão das colônias judaicas na Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Portanto, é muito difícil para o governo israelense conseguir apoio em um tema que não há consenso na sociedade dividida.

Por fim, temos o governo de Joe Biden nos Estados Unidos, que sempre apoiou a solução de dois Estados. Mas, desde a posse, a Casa Branca evitou abordar o tema, uma vez que seu foco é a crise interna da pandemia e, no âmbito externo, a China. Assim, o principal ator externo que pode fazer os dois lados voltarem pra mesa de negociação também está imobilizado.

Contudo, esta nova onda de violência, em especial entre Hamas e Israel, deve tirar este imobilismo americano e internacional, fazendo com que o conflito aberto termine logo. Os fatores que têm bloqueado o avanço das negociações devem permanecer. O imobilismo dos dois lados continuará impedindo ambos a tomarem decisões difíceis para a criação do Estado palestino. Por isto mesmo, o desencanto dos jovens palestinos continuará crescendo, fazendo com que a violência quase diária entre os dois lados permaneça, e não chame a atenção do mundo mergulhado em tantas outras crises.

*É professor de relações internacionais e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios em Oriente Médio (NENOM) da ESPM

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