Eduardo Munoz/REUTERS
Eduardo Munoz/REUTERS

'Posições recentes do Brasil diminuem impacto de vaga rotativa no CS da ONU'; leia a entrevista

Para o professor de relações internacionais da ESPM Roberto Uebel, imagem brasileira no exterior vem decaindo desde o segundo governo de Dilma Rousseff e passa por piora sob Bolsonaro

Entrevista com

Roberto Uebel, professor de relações internacionais da ESPM - Porto Alegre

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 05h00

Em votação ocorrida nesta sexta-feira, 11, o Brasil conquistou uma vaga temporária no Conselho de Segurança da ONU, assento que ocupará pela primeira vez em dez anos.  Para o professor de relações internacionais da ESPM - Porto Alegre Robero Uebel, a vitória acontece em um contexto de deterioração da imagem do País no exterior, iniciada durante o segundo mandato da ex-presidente Dilma Roussef e aprofundada durante o governo Bolsonaro. Confira a entrevista:

Qual a importância de o Brasil ocupar esse assento atualmente?

Uma importância mais simbólica, uma vez que aqueles países que possuem poder de veto, EUA, Reino Unido, China, Rússia e a França, têm uma posição já definida, bem colocada na Organização das Nações Unidas, enquanto que os países que participam de maneira rotativa têm a possibilidade de propor agendas, votar agendas, discutir, mas não têm esse poder de veto, que é o grande poder que os membros permanentes possuem. Coloca o país de novo no centro do voto decisório das relações internacionais. 

O que muda para o Brasil ter um assento no CS?

Na prática, não muda muita coisa porque a diplomacia brasileira passou por alguns processos de transformação e rupturas ao longo dos últimos anos. Desde o governo Dilma Rousseff doi, passando pelo governo Michel Temer e agora no governo Jair Bolsonaro. Então, a política externa brasileira mudou muito, e se ela mudou bastante significa que a projeção da imagem do Brasil no exterior mudou consideravelmente, ainda mais agora durante o governo Bolsonaro com seus negacionismos e controvérsias nas relações internacionais, com temas como imigrações, direitos humanos, meio ambiente, preservação ambiental, mudanças climáticas, enfim. Então, o impacto da imagem para o Brasil participar no CS é minorado em virtude das posições que o Brasil tem adotado desde antes de assumir essa vaga. 

Qual é o impacto na imagem que o País tem nas relações internacionais?

Desde o governo Dilma 2, a imagem do Brasil no sistema internacional tem perdido peso. Novos atores ganharam destaque nesses últimos 5, 6 anos, como a Turquia, o Irã e a Arábia Saudita. Inclusive, países latino-americanos, como México, Colômbia e a própria Venezuela, em virtude da situação de instabilidade política e econômica que vive. Então, a imagem que o Brasil hoje tem no mundo, se ainda não é de um pária internacional, é muito próximo a isso. Hoje, o Brasil se coloca como um ator que suscita desconfianças, preocupações e, eu diria até, uma imagem de Estado em declínio, não necessariamente falido, mas um Estado que está em declínio quanto à sua imagem e suas instituições. Aquilo que o Brasil já representou no exterior, foi um dos fundadores da ONU, esteve presente nas duas Guerras Mundiais, nas missões de paz da ONU, nas agendas propositivas, como Rio +20, a Rio 92, as cúpulas do clima. Todo esse acumulado histórico da diplomacia brasileira se perde a partir do governo Dilma 2, em virtude do processo de impeachmente, no governo Temer a gente entra numa espécie de ostracismo das relações internacionais, mas ainda é um ator que se destaca nas reuniões do G-20, nas reuniões da OEA. Já no governo Bolsonaro, a gente tem uma ruptura. Ele se afasta dos seus principais parceiros, como China, países da UE, o Reino Unido, os EUA no governo de Joe Biden, se afasta totalmente de nossos vizinhos da América Latina e, principalmente, do Mercosul, criando, inclusive, algumas situações de constrangimento com Argentina, Uruguai e Paraguai. Então hoje a imagem do Brasil está deteriorada. 

O que significa um assento no CS em um governo Bolsonaro?

O Brasil ingressou agora nesse assento rotativo junto com Gabão, Gana, Albânia e Emirados Árabes, que, comparados, são países que não possuem uma expressão internacional como aquela que o Brasil tinha até recentemente. O Brasil hoje estar no CS da ONU não deverá mudar significativamente a nossa política externa, que foi muito banalizada e colocou o Brasil numa posição de inferioridade durante a gestão do chanceler Ernesto Araújo. Hoje, na chancelaria do Carlos França, a gente vê umas posições mais comedidas, mais pragmáticas, que evitam o confronto direto, principalmente com nossos parceiros. No campo prático, não vejo uma mudança significativa para o governo Bolsonaro pelo Brasil estar no CS porque justamente o Brasil hoje se coloca nas manchetes internacionais por conta de uma situação muito grave, que é a pandemia. Temos uma das piores gestões da pandemia, um presidente que adota um discurso negacionista, anti ciência, um dos países com piores números de casos e óbitos pela covid-19, então hoje acaba ficando ofuscada essa participação do Brasil no CS da ONU.

O que teve de diferente nessa votação para o Brasil em relação às outras 11 vezes em que o Brasil ocupou esse assento?

Faz uns cinco ou seis anos que os países da América Latina e do Caribe, que têm direito a esses assentos rotativos, decidiram que não fariam mais competição para candidatura ao conselho. Por comum acordo, ficou decidido que o Brasil seria o candidato agora pela região. Seria futuramente na verdade, lá para 2023 ou 2024. mas fez um tratado com Honduras e ocorreu essa troca. Brasil foi eleito por uma ampla maioria dos votos, se não me engano 181 votos, que não teve nada de diferente ou significativo com relação às últimas eleições. Tudo bem que faz 10 anos que o Brasil não participava do CS, mas é uma participação simbólica, formal, do que de fato o Brasil conseguir mudar algo, transformar algo no sistema internacional a partir de sua participação. Claro que ele representa uma região, mas representa uma região com claras diferenças políticas. Temos toda a América Latina e o Caribe com diferentes agendas políticas, não é mais a mesma coesão política, e eu diria até ideológica, que se tinha nos anos 2010, quando se tinha a agenda progressista. Hoje você tem um governo de extrema direita no Brasil, um de quase extrema esquerda no México, governos de centro, centro-esquerda e centro-direita distribuídos pelo Caribe e América Central. Teremos muito provavelmente um governo de centro-esquerda no Peru, já temos na Argentina. Temos governo de centro-direita no Uruguai e no Paraguai, enfim. O Brasil representar a América Latina e o Caribe no cenário atual é muito diferente do que representava em 2010 e 2011. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.