Joe PUGLIESE / HARPO PRODUCTIONS / AFP
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Impacto de fala de Meghan é mais midiático que político, diz historiadora

Especialista em estudos da realeza, Ellie Woodacre vê opinião pública do Reino Unido dividida entre Meghan e Harry e o restante da família; ela ressalta que monarquia resistiu a crises graves de imagem e sobreviveu

Entrevista com

Ellie Woodacre, editora-chefe da revista científica Royal Studies

Renato Vasconcelos e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 10h02

A entrevista do príncipe Harry e de Meghan Markle à apresentadora americana Oprah Winfrey teve mais peso midiático que político. Essa é a avaliação da professora de História Moderna da Europa da Universidade de Winchester, Ellie Woodacre. "É importante lembrar que a monarquia resistiu a muitas crises graves de relações públicas nas últimas décadas e continuou a sobreviver e se recuperar para reconquistar o amor e o apoio da opinião pública britânica", afirmou ela, que também é editora-chefe da revista científica Royal Studies.

"Resta saber se esta será apenas mais uma tempestade para a monarquia enfrentar ou se isso terá um impacto mais sério a longo prazo no futuro da instituição". Apesar de não ver espaço para o questionamento da monarquia em solo britânico, a professora afirma que as consequências políticas podem ficar muito mais claras na Commonwealth - comunidade de 54 nações vinculadas ao Reino Unido -, com a possibilidade de levantes republicanos e ameaça à presença real como chefe desses Estados.

O impacto político da entrevista foi tão relevante quanto o impacto midiático?

O impacto midiático foi de longe o maior aspecto. É importante lembrar que a monarquia resistiu a muitas crises graves de relações públicas nas últimas décadas e continuou a sobreviver e se recuperar para reconquistar o amor e o apoio do público britânico.

Resta saber se esta será apenas mais uma tempestade para a monarquia enfrentar ou se isso terá um impacto mais sério a longo prazo no futuro da instituição. No momento, não há apelos sérios para considerar a abolição da monarquia - o que teria repercussões muito sérias sobre os mecanismos políticos do Reino Unido, pois tudo depende da prerrogativa real e, em teoria, exigiria a elaboração de uma nova constituição para reformular o sistema político sem o monarca no centro. Não vejo isso acontecendo no futuro imediato, mas ainda há muito a ser visto a longo prazo.

Qual foi a reação dos britânicos e das autoridades políticas do Reino Unido à entrevista?

A entrevista provocou comentários consideráveis tanto do público quanto da imprensa britânica, o que pode ser visto nas notícias nacionais e nas redes sociais. A audiência da entrevista televisionada também foi muito elevada: 12,4 milhões de telespectadores quando foi transmitida pela ITV na noite de segunda no Reino Unido. Isso demonstra o nível de interesse. E a opinião pública parece estar um pouco dividida, no entanto, com apoio tanto para Harry e Meghan quanto para a rainha e a monarquia.

Qual o peso da acusação de racismo feita por Meghan, principalmente neste período em que os debates sobre o tema estão ganhando terreno, como no caso das eleições americanas e na ascensão do Black Lives Matter?

O comentário de Meghan sobre o questionamento a respeito da cor da pele de seu bebê foi o que provocou mais discussão e reação. O contexto de Black Lives Matter e as alegações de que Meghan sofreu críticas mais intensas da imprensa devido à sua herança interracial tornam isso ainda mais sério. O Palácio respondeu acertadamente que levava esses comentários muito a sério e que os “trataria”, mas de forma privada. Mas não tenho certeza se isso será o suficiente para dissipar as preocupações do público sobre esses comentários na entrevista. Teremos de ver qual será o impacto de longo prazo na imagem da monarquia e no apoio público à família real.

Qual sua avaliação sobre a resposta do Palácio de Buckingham? O que podemos supor que se passa no círculo interno da família real agora?

A resposta do Palácio foi breve e comedida, seguindo a linha da maioria das comunicações oficiais durante eventos e crises. É difícil entender o que a família real pode estar passando neste momento, mas eles têm que lidar com duas áreas de preocupação principais. Em primeiro lugar, como qualquer família, é difícil vivenciar qualquer tipo de divisão ou desacordo em nível pessoal e espero que eles sejam capazes de se curar como unidade familiar. Em segundo, há questões dinásticas a serem consideradas em termos dos danos à reputação causados à instituição e como eles querem lidar com isso para melhorar a imagem da monarquia daqui para frente.

Como a entrevista impactou algumas das principais figuras da monarquia, como a rainha Elizabeth II, o príncipe Charles, o príncipe William e sua esposa Kate Middleton?

Harry e Meghan foram muito claros sobre seu apoio à rainha ao dizer que ela não era a fonte de suas críticas ou sentimentos ruins sobre o rompimento dos deveres da realeza. Acho que é justo dizer que a rainha continua sendo uma figura amada e amplamente respeitada pessoalmente, mesmo por aqueles que não são partidários da própria monarquia. Talvez seja o príncipe Charles quem foi mais impactado negativamente pela entrevista, já que Harry deixou claro que o relacionamento entre eles foi sofrido nos últimos meses. A imprensa fez questão de enfatizar a ideia de conflito ou ruptura entre os Cambridges (Willian e Kate) e Sussexes (Harry e Meghan), mas a verdade por trás disso é impossível de se confirmar. Certamente a entrevista será combustível adicional para aqueles que querem colocar os dois casais em oposição na mídia.

Quais as impressões sobre a rainha Elizabeth, Meghan Markle e Kate Middleton após a entrevista, considerando a aparente relação problemática entre as duas duquesas? O que pode ser dito sobre essas figuras femininas da monarquia britânica?

A entrevista só aumentará a especulação sobre algum tipo de rixa ou relacionamento ruim entre Kate e Meghan - seja isso verdade ou não. Certamente, a recente exibição da última série de 'The Crown', que enfocou a difícil entrada de Diana na família real e o impacto negativo que isso teve em sua saúde mental, também ampliará esta situação atual com Kate e Meghan, como a próxima geração de noivas reais. Os comentários de Meghan sobre sua dificuldade e falta de apoio em se adaptar à vida como uma figura real e a pressão da mídia sobre a aparência e as atividades de ambas as duquesas certamente ressoam com a experiência de Diana também.

Como esse escândalo impacta o apoio do povo britânico à família real, especialmente sobre o custo dos impostos para mantê-la?

A questão do financiamento real é muito complicada e é importante notar que este não é apenas um ponto de discussão aqui (no Reino Unido), mas tem sido uma área de intenso debate em outros países monárquicos da Europa, como a Holanda. É também algo que pode ser visto como uma questão histórica, visto que os gastos dos monarcas e a relação entre sua riqueza privada e o financiamento público têm ocorrido ao longo de muitos séculos. Há toda uma área de estudos que olha para os aspectos econômicos dos estudos da realeza. Claramente isso não é nada novo e não tenho certeza se a entrevista de Harry e Meghan em particular fará uma grande mudança para essa discussão mais ampla na política e na sociedade.

Por muitos anos, o príncipe Charles foi preparado para a sucessão, mas esse papel é ocupado agora por William. Ele foi afetado pelas revelações de alguma maneira?

O apoio público ao Príncipe William sempre foi muito grande e continua sendo. O apoio dele a instituições de caridade e de saúde mental e sua imagem como um marido atencioso e pai de uma jovem família é bem recebido. No entanto, a imagem na imprensa dos dois irmãos em oposição um ao outro não foi favorável a William, embora eu acredite que não teve um impacto devastador em sua reputação geralmente positiva com o público.

Você acredita que o caso tem impacto também nos países da Commonwealth e seus laços com a família real?

Certamente pode ser o caso. A BBC recentemente apresentou uma reportagem sobre a reação na Commonwealth e se isso impactaria a vontade das nações de se associarem à Coroa da mesma forma no futuro. A rainha está muito comprometida com a comunidade de países - seu apoio a ela foi uma das características principais de seu longo reinado, então ela ficaria particularmente triste se houvesse uma ruptura por causa dessa questão. O que já pode ser visto é que republicanos fervorosos como o ex-primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull usaram essa entrevista como uma forma de renovar os apelos para que a Austrália se torne uma república e remova a rainha como Chefe de Estado.

Em sua resposta, a rainha disse que "memórias podem variar". Esse tipo de alfinetada mostra um afastamento definitivo ou uma desaprovação à forma pública como foi feita a denúncia? Ela diz que vai levar a sério mas desacredita a denúncia.

Acredito que a rainha está sendo conservadora em sua resposta neste caso. Em qualquer cenário, as pessoas terão diferentes lembranças de um evento e do que foi dito. Eu não diria que ela está desacreditando a versão dos eventos dada na entrevista em si, mas está deixando espaço para explicações alternativas ou lembranças por parte de outros membros da família. Consideraria isso mais diplomático do que descrédito.

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