Impasse bloqueia paz na capital cipriota

Gregos querem Chipre unificado, turcos aceitam formar federação

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

O processo de paz entre turcos e gregos na Ilha de Chipre viveu uma onda de otimismo com a chegada de moderados ao poder, em 2005. De um lado, o turco-cipriota Mehmet Ali Talat; do outro, o novo presidente do Chipre, Dimitris Cristophias, do Partido Comunista. Mas, após um início promissor de negociações, o diálogo emperrou nos mesmos problemas de sempre.Os gregos querem um país unificado - e não uma confederação de dois Estados. Exigem ainda a devolução das propriedades para os "verdadeiros donos" e rejeitam a permanência de turcos assentados no Chipre. Os turco-cipriotas não concordam com esses pontos. Para eles, um país unificado acabaria controlado pelos gregos, que são maioria.O resultado desse imbróglio é que os moradores de Nicósia, a última capital dividida do mundo, perderam as perspectivas de ver o muro que separa a cidade desde 1974 vir abaixo.Localizada politicamente na Europa, mas geograficamente no Oriente Médio, Chipre é uma ilha-país do Mediterrâneo que foi cortada em duas quando os turcos invadiram o território cipriota há 34 anos e, 9 anos mais tarde, criaram no norte um Estado independente reconhecido apenas por Ancara.Greco-cipriotas, que eram maioria, se refugiaram no sul, onde está o governo oficial do Chipre.Durante 29 anos, moradores dos dois lados da cidade e do país não podiam cruzar a divisa. Em 2003, pela primeira vez, a travessia foi liberada após o início das negociações. Em poucos dias, um terço da população do Chipre atravessou a fronteira para ver o outro lado. Alguns refugiados puderam finalmente visitar suas casas.O problema é que a casa de quase todos os greco-cipriotas, estava ocupada por turco-cipriotas ou por turcos assentados por Ancara. A questão da propriedade foi o principal motivo para que os greco-cipriotas rejeitassem o plano de paz proposto por Kofi Annan em 2004.A permissão de travessia não significou o fim do conflito entre os dois lados. Greco-cipriotas continuam proibidos pelo regime turco de adquirir terras no lado norte da ilha. Já os turco-cipriotas podem morar no lado grego, desde que façam o passaporte. Muitos têm tirado a cidadania grega para tornar-se cidadãos europeus, já que o Chipre integra a União Europeia. Parte da população turco-cipriota atravessa diariamente a fronteira para trabalhar no lado grego. Greco-cipriotas também cruzam o muro para jogar em cassinos e frequentar cabarés turcos. HISTÓRIA O Chipre ficou independente dos britânicos em 1960. Cerca de 80% da população era de origem grega e cristã-ortodoxa. O restante era composto por turcos muçulmanos. Apesar das diferenças étnicas, os dois povos conviviam bem e compartilhavam a identidade cipriota. O único período em que houve animosidade entre os dois lados foi nos anos 60 e 70. Em 1974, uma Junta Militar tomou o poder na Grécia e especulou-se que eles derrubariam o governo de esquerda do Chipre. Foi aproveitando essa oportunidade que a Turquia invadiu a ilha e dividiu Nicósia.Hoje, há passagens para carros e pedestres na capital cipriota. A mais conhecida delas é a da Rua Ledras, na cidade velha, circundada por grandes muralhas. No lado grego, a rua lembra um calçadão de cidades do interior paulista. Restaurantes, lojas e cafés tornam difícil imaginar que, a poucos metros dali, há um muro que separa o país em dois. Guardas greco-cipriotas ao lado das forças da ONU não pedem nada quando se atravessa uma pequena grade colocada no fim da rua. Vinte metros depois, chega-se à divisa entre os dois lados, com a imigração da não-reconhecida República Cipriota Turca. Eles não carimbam o passaporte. Apenas um papel que deve ser usado todos os dias que a pessoa atravessa.O lado turco de Nicósia contrasta muito com o grego. É mais pobre, sujo e repleto de hotéis decadentes. Apesar de serem muçulmanos, os turco-cipriotas são extremamente seculares, diferentemente do lado grego, onde a religião cristã-ortodoxa é a base da identidade da população.Num cenário como esse, a integração à UE é um dos fatores que podem fazer as negociações de paz avançarem. A Turquia poderia levantar suas objeções à proposta greco-cipriota para poder fazer parte da Europa unificada. Os turco-cipriotas também teriam muito a ganhar, com a chegada de investimentos europeus.

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