Impasse eleitoral deve ser resolvido pelo próprio Haiti, diz Amorim

Em sinal de divergência dentro do governo brasileiro sobre o agravamento da situação política no Haiti, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, insistiu que a solução para o impasse eleitoral naquele país deve ser encontrada o mais rápido possível pelos próprios haitianos e conforte as suas leis e procedimentos eleitorais. A posição do Itamaraty contrariou claramente a tese defendida pela manhã pelo assessor da presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia.À imprensa, Garcia informou que governo brasileiro espera um entendimento entre as forças políticas no Haiti em favor da proclamação de René Préval, candidato do Movimento Esperança, como novo presidente do País. "Não se trata de ter preferência por esse ou por aquele candidato. Nossa preferência é por uma solução que respeite a vontade do povo haitiano, as leis do país e o mandato da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) e que conduza à reconciliação nacional o mais rápido possível", afirmou Amorim, pouco antes de receber o ministro das Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, para um jantar.Ao ser questionado sobre a declaração de Garcia, Amorim não ocultou sua irritação. "Não vou comentar a declaração de ninguém. Eu não o ouvi o que o professor Marco Aurélio falou", afirmou. "Você ouviu, mas eu não ouvi nem ouvi (Marco Aurélio) e nem a gravação (da entrevista). Então, não posso responder", rebateu, diante da insistência do jornalista. Amorim afirmou ter dedicado 90% de seu tempo, nesta quarta, à questão haitiana.Conversaram com a secretária americana de Estado, Condoleezza Rice, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, José Miguel Insulsa, o presidente do Chile, Ricardo Lagos, e o chefe da Minustah, o também chileno Juan Gabriel Váldez. Anteontem, Amorim já havia tratado do assunto com o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan.Para o ministro, há indicações de fraudes nas eleições do último dia 7, ressaltadas pelo registro fora de padrão de votos em branco, sobretudo nas localidades não fiscalizadas pela OEA e pela ONU. O fato de o voto não ser obrigatório no Haiti aumentou a estranheza sobre os resultados aferidos em algumas urnas. Mesmo pequena, essa diferença pode ter interferido nos resultados, que deram a Préval 49,5% dos votos - porcentual menor que os 50% mais um voto necessários para sua vitória no primeiro turno.EspanhaAo lado de Amorim, Moratinos confirmou ontem que a Espanha vai retirar os 200 soldados da Marinha que atuam na Minustah, mas afirmou que o país continuará a contribuir com assistência civil. O chanceler brasileiro, por sua vez, afirmou que este não é o momento de se estudar a elevação do contingente brasileiro no Haiti, atualmente de 1.213 militares.

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