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Impasse espanhol

Apesar de seus apelos, Rajoy não obteve apoio e não evitará uma terceira votação

O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2016 | 05h00

Em breve fará um ano que a Espanha está sem governo. As eleições legislativas em dezembro de 2015 haviam propiciado uma boa maioria para a direita, o Partido Popular (PP) do primeiro ministro Mariano Rajoy. Uma boa maioria, mas insuficiente. O PP não conseguiu formar um governo. E, assim, novas eleições foram realizadas em junho de 2016.

Não adiantou. Há dois meses Rajoy, por mais que tenha consultado, tirado sua calculadora do bolso, prometido o paraíso para uns e o inferno para outros, não conseguiu. Ainda lhe faltam seis votos.

O impasse é explicado pelo surgimento de novos partidos. Os espanhóis, cansados do eterno jogo de pingue-pongue entre os dois partidos de governo, o conservador Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), ficaram encantados quando viram surgir dois novos polos: o Podemos, de Pablo Iglésias, bem à esquerda e revolucionário, e o Ciudadanos, os liberais de Albert Rivera.

O país reencontraria sua flexibilidade, sua criatividade, sua energia e sua alegria de viver. Engano! Caiu na paralisia, na impotência e no rancor. Rajoy, que na verdade não é muito apreciado, já tentou tudo, até fazer uma aliança com o diabo, mas a conta não fecha. Sempre faltam alguns votos.

Ele fez uma última alternativa nesta segunda-feira, num encontro com o dirigente socialista Pedro Sanchez, que rejeitou apoiar o líder do Partido Popular. Rajoy esperava que os 85 deputados socialistas votassem em sua investidura. Mas, salvo uma surpresa hoje no Congresso, não veremos um governo formado. E haverá um retorno às urnas, pela terceira vez.

A linguagem fria dos dados não explica tudo. Aí entra também um elemento afetivo. Aos olhos da esquerda o premiê espanhol não tem só o inconveniente de ser de direita. Ele é também muito antipático.

Por exemplo, para sair do impasse institucional, o chefe dos socialistas da Catalunha, Miguel Iceta, sugeriu ao PSOE que, para evitar o colapso, apoiasse um candidato do PP, mas com uma condição: que tal candidato não fosse Rajoy. Mariano Rajoy perdeu a fala!

Estes espanhóis confirmam, assim, que são rigorosos e legalistas. Para eles “sim” não quer dizer “não”. E “vencer” não significa “perder”. São obstinados. Não são flexíveis.

África. Esta é uma crítica que não podemos fazer com relação ao Gabão, Estado da África do Norte, que elegeu ontem seu presidente da república. O suspense foi grande, mas à noite tudo se esclareceu. O presidente de saída, Ali Bongo (de 57 anos), filho de Omar Bongo, que dirigiu o país por 41 anos, fez um discurso sob uma imensa barraca climatizada para agradecer ao povo do Gabão por tê-lo reeleito. No mesmo momento, num outro ponto da capital, Libreville, outro candidato, Jean Ping (de 73 anos) agradecia aos mesmos eleitores do Gabão por terem lhe dado a vitória.

Jean Ping é bem conhecido, pois à época de Omar Bongo, pai de Ali Bongo, ele ocupou cargos de alto escalão no seu governo. Melhor ainda, era companheiro da irmã do seu rival hoje, Ali Bongo. Estamos claramente diante de um drama que poderia ter sido escrito por Shakespeare ou Sófocles.

Cada um dos dois vencedores tomaram o cuidado de lembrar que são “legalistas e republicanos”.

Ainda bem porque, apesar da admiração que podemos ter por essa aritmética flexível, generosa, conciliadora e até ecumênica, se este belo resultado for contestado pelos guardiães da lei, então a harmonia pode desaparecer e ser substituída por tiros de fuzil. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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