Impasse na Geórgia se aprofunda

Guerra na Ossétia completa um ano e não dissipa disputas na região

Simon Tisdall, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

Um ano depois do início do conflito separatista da Ossétia do Sul e Abkázia, as tensões entre Geórgia e Rússia continuam extremamente altas. Na semana passada, Moscou acusou o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, de se preparar para um novo conflito. O governo da Geórgia respondeu classificando as acusações de "mito" e dizendo que fazem parte de um plano de intimidação da Rússia.Após o colapso da mediação europeia, o impasse parece estar se aprofundando. Eduard Kokoiti, líder da Ossétia do Sul, disse que a declaração de independência é irreversível e acrescentou que um dia o território pode se unir à Rússia. A crescente dependência econômica e de defesa da Abkázia em relação ao Kremlin delineiam os pontos para uma anexação de fato. O impasse militar na Geórgia é alimentado pela desconfiança, por inimizades históricas e pela rivalidade econômica, principalmente na questão das rotas do fornecimento de energia. Ele reflete uma crise que atinge toda a região do Mar Negro.Na antiga disputa entre Rússia e União Europeia (UE), até agora nenhuma das potências conseguiu vencer, mas quem perde são os países fronteiriços da antiga União Soviética.Na Ucrânia, Moldávia, Azerbaijão, Armênia e Bielo-Rússia, assim como na Geórgia, o tumulto político, eleições contestadas, conflitos territoriais, violações dos direitos humanos e problemas econômicos foram exacerbados por essa queda de braço geopolítica. E a luta deverá se intensificar porque tanto Europa quanto Rússia ainda temem a derrota."Uma estratégia mais branda que se baseia numa mudança lenta e não na solução das crises está levando a UE a perder a batalha com a Rússia pela influência nos seus vizinhos do lado oriental", afirma um recente relatório do grupo de estudos do Conselho Europeu sobre Relações Exteriores. O documento prevê potenciais "consequências trágicas" para a região e para a UE , "a não ser que os líderes da União Europeia parem de apostar preguiçosamente numa estratégia de "ampliação paulatina" - ignorando que esses países vivem a pior crise política e econômica desde sua independência".Segundo Katinka Barysch, do Centro para a Reforma Europeia, a Europa deveria se envolver intensamente na região, e não depender dos EUA para fazê-lo. "Enquanto as relações da Rússia com os EUA estão descongelando, as relações entre UE e a Rússia continuam gélidas", ela afirmou. A Rússia está mais fraca do que em qualquer outro momento da década passada, acrescentou, e a UE deveria se aproveitar disso. "A economia russa está numa situação dramática."Nos três primeiros meses do ano, a produção caiu 10%. "Alguns esperam que a recessão torne a liderança russa um pouco mais humilde ou pelo menos adote algumas reformas".Mas ela disse que a Europa não pode se dar o luxo de esperar. "A UE não pode simplesmente recuar e permitir que a Rússia domine a Europa oriental. Ela precisa manter firmemente seu objetivo de ajudar os vizinhos a decidir seu destino".FRACASSOEntretanto, segundo o ex-parlamentar Vladimir Ryzhkov, colunista do Times de Moscou, os temores de uma Rússia novamente dominadora são excessivos. O Kremlin cometeu um erro atrás do outro, disse ele, antagonizando desnecessariamente a Ucrânia na questão dos preços do gás, empurrando a Bielo-Rússia e o Azerbaijão para os braços da Europa, e isolando-se no caso da guerra da Geórgia."As tentativas de Vladimir Putin de restaurar a influência da Rússia nas antigas repúblicas soviéticas fracassaram de maneira deplorável", afirmou Ryzhkov. "A posição de Moscou na região é mais fraca agora do que até mesmo há oito anos, quando Putin assumiu o poder", acrescentou. "É este o resultado direto da incapacidade de Putin de modernizar a economia, da destruição sistemática da democracia do país e do aumento vertiginoso da corrupção."As medidas inábeis de Moscou, principalmente na Geórgia, ofereceram à UE um alvo aberto para atingir, ele sugeriu. A Rússia está "caminhando para trás no futuro e chama a isso de progresso".

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