Impasse no diálogo com Irã persiste em Genebra

Nova reunião de chanceleres para debater programa nuclear do país acaba sem acordo

GENEBRA, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h09

Reunidos até a noite de ontem em Genebra, o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamed Javad Zarif, não conseguiram vencer todos os pontos de discordância e as negociações sobre o programa nuclear iraniano esfriaram. A reunião também incluiu a chefe de diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton.

Mais cedo, Kerry já havia conversado com o chanceler russo, Sergei Lavrov.

Entre a noite de sexta-feira e ontem, houve avanços nas negociações que fizeram com que os chanceleres do grupo 5+1 (EUA, China, Rússia, Grã-Bretanha, Alemanha e França) viajassem para Genebra para dar um impulso final à diplomacia com o objetivo de alcançar um acordo. Kerry deixará a Suíça hoje com destino a Londres.

O chanceler britânico, William Hague, e o alemão, Guido Westerwelle alertaram que um acordo preliminar para apaziguar anos de rixa com a república islâmica não está garantido e que há muito trabalho pela frente para aparar as diferenças restantes. "Nós (chanceleres) não estamos aqui porque as coisas estejam necessariamente encerradas", afirmou Hague. "Estamos aqui porque a situação é difícil e continua difícil."

Um pouco mais otimista, o diplomata alemão disse que há uma chance real de acordo. "Mas ainda há muito trabalho a fazer", ressaltou. Apontado como responsável pelo fracasso da primeira rodada de negociações em Genebra, o ministro de Relações Exteriores da França, Lauren Fabius, prometeu buscar um acordo "sólido".

O chefe dos negociadores iranianos, o vice-chanceler Abas Araghchi confirmou que, apesar dos avanços, ainda há "dois ou três" pontos de divergência para definir os termos do acordo. "Temos de ver se podemos resolver as diferenças", disse Araghchi.

Antes de se reunir com Kerry e Ashton, Zarif ressaltou que há limites para as concessões iranianas. "As negociações entraram em uma fase muito difícil e não estamos dispostos a aceitar um acordo que prejudique os direitos e os interesses do Irã", declarou. "Nos oporemos a qualquer exigência excessiva."

Impasse. Os principais pontos de discórdia entre as potências nucleares são a posição do Irã de não abrir mão de seu direito de enriquecer urânio e a utilização do reator de Arak, que pode produzir plutônio e é considerado como uma "rota alternativa" para a confecção de armas nucleares.

Diplomatas disseram anteriormente que uma das grandes diferenças entre as partes pode ter sido superada nas negociações, iniciadas na quarta-feira, com uma linguagem que não reconhece explicitamente o "direito de enriquecer urânio" do Irã, mas legitima o direito de todos os países de produzir energia nuclear para fins civis.

O vice-chanceler russo, Sergei Ryabkov, disse que a exigência do Irã de permanecer construindo um reator de água pesada perto de Arak ainda é um ponto de debate entre as partes. A diplomacia russa, no entanto, demonstrava otimismo ontem com as negociações.

"Pela primeira vez em muitos anos o P5+1 e o Irã podem chegar a um acordo", afirmou o chanceler Sergei Lavrov na nota. O porta-voz da chancelaria chinesa, Hong Lei, disse que as negociações chegaram a seu "momento final". China e Rússia são os principais aliados da república islâmica em Genebra.

O objetivo das negociações de Genebra é selar um acordo provisório que alivie parte das sanções econômicas que têm arrasado a economia iraniana em troca de uma paralisação do programa nuclear do país persa por seis meses (mais informações nesta página). Esse pacto possibilitaria um acordo mais amplo no ano que vem para impedir que o Irã construa armas nucleares.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu se opõe firmemente a qualquer acordo, por julgar que o Irã busca apenas ganhar tempo. Ele acusou o presidente iraniano, Hassan Rohani, de ser "um lobo em pele de cordeiro" e tem pressionado líderes ocidentais e parlamentares do Congresso dos EUA contra o acordo.

Monarquias sunitas do Golfo Pérsico, principalmente a Arábia Saudita e o Catar, também são céticas em relação às negociações nucleares. / AP, REUTERS, AFP E EFE

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