Al Drago/The New York Times
Al Drago/The New York Times

Impeachment: Como funciona o sistema supersecreto dos computadores da Casa Branca

Segundo denunciante, conselheiros colocaram registro da ligação entre Trump e o presidente da Ucrânia em sistema de armazenamento restrito, impropriamente restringindo o acesso

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 18h43

WASHINGTON - O denunciante que revelou a tentativa do presidente Donald Trump de pressionar o líder da Ucrânia, Volodmir Zelenski, para abrir investigações que poderiam beneficiá-lo politicamente também acusou oficiais da Casa Branca de esconder um registro bruto da conversa de telefone entre os dois. Os oficiais teriam colocado o registro no mesmo sistema de computador altamente restrito para segredos muito bem guardados do governo. 

Em sua queixa, o denunciante cita oficiais da Casa Branca que retrataram o armazenamento do registro da ligação nesse sistema como "somente pelo propósito de proteger informação politicamente sensível - ao invés de informação sensível no nível da segurança nacional" e rotulou isso como um "abuso". Mais de meia dúzia de ex-funcionários do Conselho de Segurança Nacional explicaram, em entrevistas e na condição de anonimato, como o sistema de armazenamento restrito funciona. 

Como assessores usualmente armazenam registros de ligações presidenciais com líderes estrangeiros? 

Na maioria das vezes, o Conselho de Segurança Nacional - o braço de política externa da Casa Branca - registra ligações presidenciais telefônicas ou de vídeo com chefes de Estado estrangeiros no chamado sistema TNet, segundo os oficiais entrevistados. Essa é uma rede de computador de nível "top-secret" - classificação mais alta de confidencialidade - que é a principal plataforma que um assessor usa para realizar seu trabalho. Ela se conecta com uma rede também "top-secret" chamada JWICS, que é mais usada em outros setores do poder executivo. 

O sistema TNet tem controles de acesso e proteções auditoras. Por exemplo, ele mantém registro de quem criou ou fez upload de arquivos, de quem os abriu, de quem os modificou e de quem os imprimiu. Quando oficiais criam um "pacote" - essencialmente, um novo arquivo - no TNet, eles podem configurar controles para que qualquer colega que trabalhe com um tema específico, como questões da Europa ou contraterrorismo, tenha acesso. 

O que entra no TNet? 

Oficiais podem armazenar qualquer arquivo que seja confidencial no nível "top-secret", contanto que não seja "code-word", um termo que se refere a uma categoria de informações "top-secret" ainda mais delicadas, as quais os oficiais só têm permissão de saber se ganharem um acesso específico a elas. 

Oficiais com um certificado de segurança "top-secret" geral não terão certificado de segurança "code-word" para saberem de atividades secretas que não são relacionadas a seu trabalho. Por exemplo, um assessor trabalhando em políticas em relação à Coreia do Norte não teria sido informado do planejamento da incursão de 2011 no complexo de Osama bin Laden, no Paquistão. De modo similar, arquivos contendo inteligência de apoio à incursão não foram armazenados no sistema comum TNet. 

Onde o Conselho de Segurança Nacional armazena seus arquivos mais sensíveis? 

O conselho também tem um sistema ainda mais restrito chamado Nice (N.S.C. Intelligence Collaboration Environment, ou Ambiente de Colaboração de Inteligência do Conselho de Segurança Nacional, em tradução livre). O Nice parece ser o que o denunciante se referiu como um sistema de computador "stand alone" gerido pela diretoria de programas de inteligência do conselho. Para um ex-oficial, ele é melhor entendido como um subdomínio do TNet. 

Assessores de política externa tipicamente usam o Nice para desenvolver e armazenar documentos relacionados a programas "code-word". Por exemplo, fucionários trabalhando em uma atividade secreta podem usar o Nice para esboçar um relatório de decisão presidencial sobre a atividade. Quando eles terminam, eles imprimem uma cópia para o presidente assinar. 

Por que armazenar segredos no Nice? 

Isso reduz significativamente o número de pessoas que podem ter acesso à informação. Aproximadamente só 20% dos funcionários do Conselho de Segurança Nacional são usuários do Nice, segundo um ex-oficial. Eles podem logar no sistema de seus computadores de trabalho usando um software de rede privada que limita cada um deles a usar aquela estação de trabalho em particular. 

Ainda de acordo com o ex-oficial, quando usuários do Nice criam ou fazem o upload de um novo arquivo, eles só podem dar acesso a ele para outros usuários do Nce por nome; diferente de como é no TNet, eles não podem convidar grupos inteiros de pessoas. 

É um "abuso" usar o sistema Nice para armazenar um arquivo que não é do nível "top-secret code-word" de confidencialidade? 

Usar o sistema Nice para restringir o acesso ao registro da ligação do presidente Trump com o líder da Ucrânia, Volodmir Zelenski, pode muito bem ser, como o denunciante também escreveu, um sinal de "que a Casa Branca entendeu a gravidade do que havia acontecido na ligação". Mas chamar a ação de "abuso" parece ser subjetivo. 

Geralmente, o conselheiro de segurança nacional pode decidir quem vê quais arquivos. Nenhuma regra proíbe de colocar um arquivo com um nível mais baixo de confidencialidade no sistema Nice para tirar vantagem de suas maiores restrições de acesso, diz um ex-oficial. 

Por contraste, o oficial afirma, seria claramente um abuso - violação de uma proibição específica de uma ordem executiva que rege informações confidenciais - marcar algo confidencial com um nível injustificavelmente alto para esconder violações da lei ou prevenir constrangimento. Neste caso, no entanto, o registro da ligação divulgado foi meramente marcado como "secreto", um nível mais baixo de classificação de confidencialidade do que "top-secret". 

Como as transcrições das ligações de chefes de Estado são feitas? 

De acordo com vários ex-oficiais que ajudaram a criar os registros, o processo tipicamente começa com um tomador de notas que trabalha para a Sala de Crise ou Sala de Situação (Situation Room, a sala de reuniões de Inteligência da Casa Branca) e que monitora a ligação. A Situation Room usa um software voz-para-texto para criar uma transcrição bruta em tempo real - nenhuma gravação é feita - e então o tomador de notas faz uma limpeza corrigindo quaisquer momentos deturpados ou ilegíveis. 

O esboço então passa por um especialista no tema que faz parte da equipe do Conselho de Segurança Nacional e que também estava ouvindo a ligação. Esse especialista - que tem maior familiaridade com nomes e lugares estrangeiros - edita o registro. No fim do processo, os assessores passam o registro para o conselheiro de segurança nacional. 

A versão da Casa Branca da ligação de Trump para a Ucrânia é exata e completa? 

Além do fato de que o registro não é uma transcrição literal, ele contém três pausas nas quais o presidente Trump estava falando - e cada uma em um lugar onde ele estava pedindo ao presidente ucraniano por investigações. 

Não está claro se isso indica que Trump parou de falar ou que algo foi cortado da reconstrução. Também não está claro se existe alguma anotação de oficiais americanos que indicaria se ele disse qualquer coisa a mais nesses pontos do registro. 

Mas, de acordo com um oficial, quaisquer anotações ou documentos discutidos por dois ou mais oficiais do Conselho de Segurança Nacional conta como "registro" que não pode ser destruído legalmente por causa do Presidential Records Act (Lei de Registros Presidenciais). No entanto, o arquivo inicial produzido pelo software voz-para-texto não contaria como um registro e poderia ser legalmente deletado, segundo ele. 

E na Ucrânia? 

Não está claro se a administração de Zelenski registrou sua ligação com Trump. Governos ucranianos anteriores não registravam ligações com líderes mundiais, de acordo com um ex-oficial sênior ucraniano familiar com o processo. Em vez disso, com oficiais estrangeiros de importância estratégica, líderes ucranianos colocavam conselheiros para ouvir a conversa e fazer anotações detalhadas, ele afirma. 

A transcrição divulgada pela Casa Branca da ligação de julho entre Trump e Zelenski foi exata e completa, segundo um oficial ucraniano familiar com o assunto. Ele completa dizendo que informações significativas não foram omitidas, incluindo nas pausas. / NYT

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