EFE/Chris Kleponis
EFE/Chris Kleponis

Impeachment de Trump é fantasia

A única coisa que admiro em Trump e seus apoiadores: eles não temem, e certamente gostam de, exercer poder cru sobre seus oponentes

Thomas L. Friedman / The New York Times , O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 05h00

Desde que Donald Trump demitiu James Comey do cargo de diretor do FBI, uma pergunta tem sido repetida à exaustão: com os democratas sem poder real de governo, haverá um punhado de bons homens e boas mulheres eleitos pelo Partido Republicano que se levantarão contra o abuso de poder do presidente como seus predecessores fizeram durante Watergate?

E essa pergunta certamente se fará ouvir em maior volume com o relato de que Trump pediu a Comey em fevereiro para frear a investigação sobre o conselheiro de segurança nacional da presidência. Já sabemos, no entanto, a resposta: não.

Em primeiro lugar, o Partido Republicano nunca teria abraçado alguém como Trump – um homem indecente com histórico de múltiplas falências, calotes, sob suspeita de assédio sexual, que mente assim como respira – se houvesse qualquer chance de a resposta ser sim.

Praticamente todos os bons quadros na liderança do partido foram expurgados ou silenciados; aqueles que restaram foram comprados por lobistas ou decidiram, cinicamente, embarcar no Navio do Pirulito Feliz de Trump para explorá-lo e fazer avançar suas agendas. Não foi sem custo. Trump fez cada um de seu entorno parecer “mentiroso ou tolo”, nas palavras de David Axelrod. Então, podem encerrar as buscas. Não haverá motim no Partido Republicano, mesmo que Trump se pareça a cada dia mais com o capitão Queeg. 

Por esse motivo, a única pergunta relevante é a seguinte: há dezenas de milhões de homens bons e mulheres boas nos Estados Unidos prontos para concorrer como democratas e votar em democratas ou independentes nas eleições de 2018 para o Legislativo, substituindo a atual maioria republicana na Câmara e, talvez, no Senado? Nada mais importa – tudo, agora, resume-se a uma crua disputa de poder.

A única coisa que admiro em Trump e seus apoiadores: eles não temem, e certamente gostam de, exercer poder cru sobre seus oponentes. Eles não temem ganhar por margem estreita e governar como se houvessem vencido de lavada. Trump teve o poder de nomear negadores das mudanças climáticas para postos-chave na área ambiental – dane-se a ciência. Teve o poder de demitir Comey, mesmo que significasse demitir o homem que o investigava por possível conluio com a Rússia. E demitiu – danem-se as aparências.

Democratas e independentes não devem se iludir ou se distrair com passeatas em Washington, tuítes espirituosos ou com o “Saturday Night Live” ironizando Trump. Eles precisam de poder. Se você está apavorado com o que Trump tem feito – com apoio dos republicanos da Câmara e do Senado –, então, precisa sair do Facebook e entrar no campo de visão de alguém, concorrendo ao Congresso como democrata ou independente, convencendo alguém a se registrar para votar ou angariando fundos para apoiar esses candidatos. Nada mais importa. 

O grupo moralmente corrupto que atualmente lidera o Partido Republicano consegue se safar não porque tem melhores argumentos – pesquisas mostram que a maioria discorda deles sobre Comey ou meio ambiente –, mas porque tem o poder e não tem medo de usá-lo, não importando as pesquisas. E esses dirigentes do partido vão utilizar o poder para reduzir impostos para os mais ricos, retirar o seguro-saúde para os mais pobres e jogar as políticas sobre mudanças climáticas no colo da indústria dos combustíveis fósseis até que outro grupo consiga se tornar um contrapeso a esse poder conquistando uma maioria na Câmara ou no Senado.

Não sou um democrata fanático. Sou mais conservador em questões de livre-comércio, negócios, empreendedorismo e uso da força quando comparado aos candidatos democratas. Penso que seria benéfico ao país ter um partido conservador inteligente oferecendo soluções com base em mercado e mérito para nossos maiores problemas – desde clima e energia até educação, impostos e infraestrutura – e estivesse disposto a dialogar com os democratas “no meio do caminho”. Mas esse não é o Partido Republicano atual. O partido perdeu sua bússola moral.

Imagine aquela foto de Trump rindo ao lado do chanceler da Rússia no Salão Oval, um ministro que acobertou o uso de gás venenoso pelo governo da Síria. Há relatos de que Trump compartilhou com ele dados secretos de inteligência sobre o Estado Islâmico e o presidente dos EUA impediu a entrada da imprensa americana na sala. A imagem só veio a público por meio de um fotógrafo oficial russo. Na Casa Branca! Isso é nauseante. E o Partido Republicano está mudo. Se Hillary Clinton tivesse feito isso, eles fechariam o governo.

É por isso que, em 2018, o candidato democrata mais esquerdista à Câmara ou ao Senado é preferível ao mais moderado dos republicanos, a meu ver, porque os moderados já mostraram que não pretendem confrontar Trump. E a presidência de Trump não é uma ameaça apenas às minhas preferências políticas, mas ao estado de direito, à liberdade de imprensa, à ética no governo, à integridade das instituições, aos valores que as crianças precisam aprender pelo exemplo do presidente e ao papel duradouro dos EUA como líderes respeitados do mundo livre.

É por isso que há apenas duas alternativas agora: será “frango” ou “peixe”? Será uma Câmara ou Senado com maioria democrata que possa, no mínimo, frear Trump em seus dois anos finais de mandato, ou serão quatro anos de um presidente fora de controle? O Partido Republicano não abraçará o impeachment, podem esquecer essa fantasia. Ou os democratas conseguem algum poder, ou ficaremos restritos a trocar e-mails sobre Saturday Night Live.

Então, repito, concorram como candidatos democratas ou independentes ao Legislativo, angariem dinheiro para essas candidaturas, convençam outros a se registrar como eleitores para o dia 6 de novembro de 2018. Nada mais importa. É frango ou peixe, baby. Só frango ou peixe. 

*É COLUNISTA

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