Andrew Caballero-Reynolds e Saul Loeb / AFP
Andrew Caballero-Reynolds e Saul Loeb / AFP

Impeachment faz campanha de Trump à reeleição arrecadar US$ 250 mil em 15 minutos

Iniciativa democrata de abrir processo formal para determinar se presidente americano pode ser afastado do cargo empolgou base dos dois partidos; democratas esperam que iniciativa energize seus eleitores

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 11h08
Atualizado 26 de setembro de 2019 | 17h03

WASHINGTON - Ao mesmo tempo em que a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, controlada pelos democratas, iniciava um processo formal para determinar se o presidente Donald Trump pode ser afastado do cargo, seu comitê de campanha para a eleição de 2020 tentava transformar o momento de dificuldade em uma oportunidade, bombardeando apoiadores com apelos para arrecadar fundos.

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Em um sinal de que a investigação no Congresso deve energizar a base de Trump, sua campanha à reeleição arrecadou US$ 250.000 em apenas 15 minutos após o anúncio de Pelosi sobre o processo de impeachment. Além disso, no Twitter o chefe de gabinete no Partido Republicano, Richard Walters, afirmou que as doações para o presidente americano devem chegar a US$ 3 milhões nesta quarta-feira, 25.

Os pedidos de doação começaram pouco antes da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, anunciar os primeiros passos para um possível impeachment do presidente americano. E-mails, textos, tuítes e um vídeo direcionavam apoiadores de Trump para um novo site republicano, desenvolvido para capitalizar o "exército" de doadores do republicano na web.

"Os democratas prosperam em silenciar e intimidar os apoiadores (de Trump), como VOCÊ, amigo. Eles querem tirar O SEU voto", dizia um e-mail enviado aos apoiadores do presidente na terça-feira à tarde. "O presidente Trump quer saber quem ficará com ele no momento mais importante."

Esse tipo de apelo tem sido um dos pilares da estratégia de captação de recursos de Trump para bancar sua campanha de reeleição.

Com a ajuda de pequenos doadores irritados com a sensação de que o presidente está sendo tratado injustamente, o esforço de reeleição de Trump acumulou um valor recorde de doações antes mesmo das primárias do Partido Republicano ao transformar ataques políticos contra o presidente em momentos de arrecadação de fundos.

A capacidade de Trump de se conectar com os internautas reformulou a base de doadores do partido, que historicamente se apoiava em grandes nomes, e criou um desafio para os pré-candidatos democratas: mostrar que também conseguem criar sua própria base de pequenos doadores para competir com Trump.

O apelo lançado na terça-feira pedia aos seus partidários que se unissem a uma "Força-Tarefa oficial de defesa contra o Impeachment", composta "apenas pelos apoiadores mais LEAIS do presidente Trump", com doações sugeridas que variam de US$ 5 a US$ 2.800. Também havia um valor sugerido de US$ 45 para mostrar apoio ao 45º presidente dos EUA.

"Nancy acabou de pedir o impeachment. CAÇA ÀS BRUXA! Preciso de você na minha equipe de defesa contra o impeachment", dizia uma mensagem de texto enviada aos celulares dos apoiadores do presidente logo após o anúncio da líder democrata. A mensagem foi "assinada" por Trump.

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"A estratégia equivocada de impeachment dos democratas visa apaziguar sua base raivosa, extrema e esquerdista, mas servirá apenas para encorajar e energizar os apoiadores do presidente Trump e criar uma vitória esmagadora para o presidente", disse o gerente de campanha do Trump, Brad Parscale, em comunicado.

Por sua vez, pré-candidatos presidenciais democratas - incluindo o ex-vice-presidente Joe Biden, o ex-congressista do Texas Beto O'Rourke, o ex-secretário de Habitação Julián Castro, a senadora Kamala Harris e o senador Cory Booker - também enviaram pedidos de apoio inspirados pelo possível impeachment de Trump.

"Pessoal, Trump tem medo de enfrentar Joe no próximo outono e continua atacando", dizia um texto enviado por Biden a seus apoiadores na terça. "Use este link para entrar agora na defesa de Joe Biden", continuava a mensagem que levava para a página de doações da campanha do democrata.

Desafio para os democratas

Os muitos pré-candidatos democratas à presidência dos EUA foram quase unânime em elogiar a decisão dos deputados do partido de iniciar um inquérito de impeachment contra Trump, mas isso pode representar um grande obstáculo para as pré-campanhas: com o possível impeachment ofuscando a disputa primária do partido, como os pré-candidatos conseguirão destacar suas principais questões políticas?

Kurt Meyer, presidente do Partido Democrata em três condados rurais de Iowa ao norte de Des Moines, a cidade mais populosa do Estado, disse esperar que o processo de impeachment energize a base democrata. "Se uma pessoa altamente motivada conseguir levar sua mãe e seu marido e seu primo em segundo grau para as urnas, isso faz a diferença", disse Meyer.

Também existe o risco de que quaisquer discussões políticas substanciais entre os 19 democratas que concorrem à nomeação do partido sejam abafadas na crescente batalha entre aliados e inimigos de Trump, disseram vários estrategistas e especialistas democratas.

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“Trump tem sido o elefante na sala, mas os debates democratas até agora foram realmente centrados na política. Acho que o impeachment agora deve ocupar o centro do palco ”, disse Erin O'Brien, professora de ciência política na Universidade de Massachusetts, Boston.

Doug Heye, um estrategista republicano que trabalhou com líderes do Congresso, disse que as mensagens republicanas ficaram mais simples. "Para os democratas que concorrem à presidência, convencer com (propostas para) saúde ou economia ficou muito mais difícil", disse ele. "O impeachment será o tópico dominante por um longo tempo." / WASHINGTON POST e REUTERS

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