Frank Augstein/AP
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Impedidos de usar trens, refugiados iniciam marcha para deixar Hungria

Budapeste proibiu embarques e mais de mil pessoas decidiram caminhar para chegar a Áustria ou Alemanha; ONU reforça pedido para que países aceitem acolher mais civis em fuga

Jamil Chade, CORRESPONDENTE, GENEBRA, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2015 | 02h00

Desafiando os líderes europeus incapazes de agir, mais de mil refugiados decidiram na sexta-feira iniciar uma longa caminhada de 180 quilômetros para sair da Hungria em direção a Áustria e Alemanha. A tensão na Europa se aprofundava, com um novo número recorde de pessoas cruzando a fronteira da Grécia com a Macedônia, confrontos com a polícia e um impasse político entre os governos.

De madrugada, o governo da Áustria divulgou um comunicado afirmando que os refugiados que estavam chegando a pé seriam autorizados a entrar no país e solicitar asilo ou prosseguir a viagem para a Alemanha. Segundo o governo de Viena, a decisão foi tomada após conversa com a chanceler alemã, Angela Merkel.

Também ficou estabelecido que funcionários da Cruz Vermelha aguardariam a chegada dos refugiados, entre eles muitas crianças. 

Enquanto isso, a ONU pedia à União Europeia (UE) que recebesse 200 mil refugiados para tentar amenizar a crise. Segundo as Nações Unidas, 5,6 mil novos refugiados passaram ontem da Grécia para a Macedônia, tomando a direção de Sérvia e Hungria, um volume inédito.

O número é quase o dobro do que foi registrado no início da semana e, para a ONU, revela que a intensidade do fluxo é cada vez maior. Até ontem, 364 mil pessoas haviam entrado na UE, com 3,7 mil mortes ocorridas durante as tentativas. 

A intensificação da nova onda de imigrantes deixou as autoridades preocupadas, principalmente diante da incapacidade de lidar até mesmo com aqueles que já cruzaram alguns desses países. Em Calais, no norte da França, mais de cem refugiados iniciaram uma greve de fome como protesto pelas condições de vida. Na Grécia, policiais reprimiram com gás um protesto de refugiados. 

Mas o símbolo da crise passou a ser a Hungria. O governo local havia decidido na terça-feira fechar a estação de trens de Budapeste aos refugiados e todos os trens para Viena ou Munique foram proibidos de levar os estrangeiros. O impasse transformou a região da estação ferroviária da capital em um campo de refugiados. 

Sem banheiros, sem comida e hostilizado pela polícia, o grupo decidiu que seguiria viagem a pé. A coluna de pessoas parou o trânsito da cidade, enquanto idosos, crianças, mulheres grávidas e centenas de homens marchavam. Pela estrada, a polícia foi obrigada a acompanhar o cortejo, mas não o impediu de seguir viagem. “Os húngaros são cruéis. Não nos permitem ir de trem, mas não nos param se formos caminhando”, declarou Mahmoud, um dos sírios que liderou a ideia de seguir a pé. 

Em uma conversa com a reportagem por telefone, das ruas da cidade, ele alertava: “Ninguém vai nos parar. Não sei como os europeus não entenderam ainda”. 

Já era noite quando os refugiados foram informados de que o governo enviaria ônibus para levá-los até a fronteira. Mas não garantia que os austríacos os deixariam passar. No sul do país, 64 refugiados conseguiram escapar de um acampamento e, na fronteira com a Sérvia, a passagem foi fechada após 300 pessoas conseguirem saltar as cercas no local.

Enquanto o caos reinava em diversas partes do país, o Parlamento húngaro aprovou uma lei tornando praticamente impossível a permanência na Hungria de imigrantes sem documentos. Quem entrar sem visto pode ser condenado a 3 anos de prisão, enquanto refugiados serão colocados em “zonas de trânsito”, sem permissão para chegar às cidades.

“Não podemos permitir que os europeus sejam minoria em seu continente”, disse o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. “Hoje, falamos de milhares. Mas no ano que vem podem ser milhões e isso precisa acabar. Se deixarmos todos entrarem, estamos acabados. Se você é rico, você também precisa ser forte para impedir que os outros levem as coisas pelas quais você trabalhou.” 

Cotas. Para França e Alemanha, a crise só será resolvida quando um sistema de cotas obrigatórias for estabelecido, exigindo que cada país receba um certo número de refugiados. Na sexta-feira, a ONU indicou que essa cota teria de ser de 200 mil refugiados, como parte de um programa de realocação em massa. “Para uma crise excepcional, precisamos de medidas excepcionais”, disse o alto-comissário da ONU para Refugiados, Antonio Guterres. 

Hungria, República Checa, Eslováquia e Polônia reuniram-se e alertaram que não vão aceitar cotas obrigatórias. No lugar, oferecem criar um “corredor ferroviário entre a Hungria e a Alemanha” para fazer com que os refugiados possam passar pelo país sem ficar em Budapeste.

Para a primeira-ministra da Polônia, Ewa Kopacz, não há como “impor solidariedade”. O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, chegou a afirmar que o “fluxo descontrolado de pessoas aumenta o risco do terrorismo”. 

Apesar da rejeição dos governos do Leste Europeu, a ONU disse na sexta-feira que o impacto da imagem do garoto sírio de 3 anos, Aylan Kurdi, morto em uma praia na costa da Turquia conscientizou líderes da necessidade de agir. As Nações Unidas receberam doações de mais de 100 mil euros desde a divulgação da foto. 

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