Imperfeita, mas é a liberdade

Democracias que substituem regimes árabes depostos talvez não sejam ideais, mas são melhores do que a tirania

JOHN, HUGHES, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , É EX-EDITOR DO CHRISTIAN SCIENCE , MONITOR, JOHN, HUGHES, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , É EX-EDITOR DO CHRISTIAN SCIENCE , MONITOR, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2011 | 03h07

Este tem sido um ano ruim para os déspotas. A primavera árabe os derrubou na Tunísia, no Egito e na Líbia. Quem será o próximo? E qual será o tipo de democracia que o mundo árabe vai adotar?

Os mais comentados dentre os possíveis futuros déspotas depostos são os líderes da Síria e do Iêmen. O sírio Bashar Assad, educado no Ocidente, já foi um dia anunciado como um convertido à reforma democrática. Mas se revelou um assassino tão agressivo quanto foi o pai, a quem sucedeu. A rebelião no país tem se arrastado e os manifestantes parecem determinados. Agora, a Liga Árabe está trabalhando num plano para a realização de eleições livres na Síria e a retirada dos tanques e blindados leves das ruas.

Enquanto isso, o presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, que se mantém no poder há mais de três décadas, encontra-se sitiado, mas insiste em recusar os acordos que o afastariam do cargo. Há no país a ameaça de uma guerra civil aberta.

Atentos à tempestade política que varre o deserto, outros governantes árabes, como o rei Abdullah, da Jordânia, e o rei Mohammed, do Marrocos, falaram em ceder ao povo parte do poder monárquico. Resta saber se isso poderá salvá-los no longo prazo.

Na Arábia Saudita, a monarquia tentou afastar a insatisfação por meio da distribuição dos lucros do petróleo entre seus súditos. Foi feita a promessa de mais autonomia para as mulheres, conferindo-lhes o direito de votar nas eleições locais. Desde a recente morte do príncipe Sultan, o novo herdeiro do trono é o príncipe Nayef, ministro do Interior. Ele mantém um relacionamento próximo com o influente e conservador clero do país. E opõe-se a algumas das reformas anunciadas.

Graças ao sacrifício americano, o Iraque viu-se livre do ditador, Saddam Hussein. O fraturado governo do país, formado por múltiplas vozes e partidos, está longe do ideal. Mas é o tipo de democracia imperfeita com que os ocidentais precisam demonstrar paciência enquanto milhões de muçulmanos descobrem o caminho da liberdade. Para os iraquianos, a verdadeira pergunta é se eles querem que seu país se torne uma província do ameaçador vizinho iraniano.

A Tunísia, que liderou a primavera árabe, parece ter dado seus primeiros passos na democracia com as eleições de outubro. Os egípcios, livres de Hosni Mubarak, estão se debatendo com a relutância do Exército em entregar o controle das alavancas do poder e do comércio.

O povo da Líbia poderá agora beneficiar-se do substancial lucro da exploração do petróleo, açambarcado por tantas décadas por Muamar Kadafi e sua família. Mas um país com mais de 100 tribos diferentes terá de realizar eleições livres, criar um sistema coerente de governo e construir a infraestrutura nacional para um povo que passou mais de 40 anos submetido aos caprichos de um tirano.

A grande esperança no Oriente Médio está na maneira com a qual as mulheres participam da mudança, mostrando sua coragem nas barricadas, exigindo voz na formulação dos novos governos e reivindicando o respeito há tanto tempo negado. Será que há outros ditadores prestando atenção ao destino desses tiranos árabes? O Irã fica no Oriente Médio, mas não é árabe. Seus líderes parecem nada ter aprendido com a primavera árabe.

Na Coreia do Norte, Kim Jong-il pretende dar continuidade à tradição da ditadura dinástica ao nomear seu filho como sucessor. Na África, Robert Mugabe, do Zimbábue, preside uma brutal ditadura que mata e aprisiona os opositores que protestam contra o governo. Apesar dos tiranos que ainda restam, estamos testemunhando um extraordinário levante em favor da liberdade numa parte importantíssima do mundo. Pode não ser o tipo de democracia que os ocidentais preferem. Mas, como disse certa vez o sábio Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo - exceto todas as outras".

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