''Imperialismo'' brasileiro preocupa região

Expansão comercial e diplomática enfrenta resistência de países vizinhos

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2008 | 00h00

Os recentes atritos entre as brasileiras Petrobrás, Norberto Odebrecht, Queiroz Galvão, Furnas, Itaipu e BNDES contra os governos da Bolívia, do Equador e do Paraguai despertaram o temor de que o Brasil esteja sofrendo uma onda de rejeição na América do Sul.De abril de 2006, quando o presidente boliviano, Evo Morales, expulsou a mineradora brasileira EBX, até a semana passada, foram pelo menos dez impasses que revelam sinais de fumaça na vizinhança.Os casos vão de ameaças a agricultores brasiguaios na região central do Paraguai a ocupações militares de instalações da Petrobrás, como a ocorrida em maio de 2006, na Bolívia, ou a expulsão de quatro representantes da Odebrecht no Equador, em setembro.Analistas ouvidos pelo Estado em todos os países envolvidos nesses casos são unânimes em afirmar que o clima, para o Brasil, mudou e as tensões comerciais, se não forem bem administradas, podem contaminar a política e a segurança da região.Para Marcelo Coutinho, coordenador executivo do Observatório Político Sul-Americano da Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, há "uma tradição dos movimentos populares e sociais latino-americanos muito forte de contestação das empresas multinacionais em geral". Segundo ele, "o que ocorre é que as empresas brasileiras são agora as empresas multinacionais nestes países e, por mais que sejam brasileiras, elas são empresas estrangeiras".Dos 13 países da América do Sul, 8 têm presença da Petrobrás e da Norberto Odebrecht. Três contam com obras da Queiroz Galvão. A Petrobrás responde sozinha por 25% de toda arrecadação fiscal e por 18% do PIB da Bolívia. No Paraguai, calcula-se que entre 400 mil a 600 mil brasiguaios - brasileiros que compraram terras no país ao longo de 40 anos - estariam no alvo de manifestações violentas de camponeses sem-terra que romperam esta semana uma trégua de 15 dias com o governo, ameaçando os proprietários brasileiros."Em geral, há uma percepção amigável sobre o Brasil. Apesar disso, há uma enorme onda nacionalista, o que não exclui as empresas brasileiras", disse ao Estado o economista boliviano Gonzalo Chávez, da Universidade Católica de La Paz . Segundo ele, a resposta brasileira a esses ataques tem sido dividida, o que causa confusão nas relações regionais. "Por um lado, as empresas têm pressa em ganhar e não querem perder dinheiro de seus investidores. Depois, há o Itamaraty, que responde de forma sempre institucional, dura. Por último, há a diplomacia do presidente Lula e do Marco Aurélio Garcia (assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais), que usam a sintonia política e ideológica para se comunicar com os vizinhos", disse Chávez.No fim de semana, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, percorreu os 2,5 mil quilômetros de fronteira com Paraguai, Argentina e Uruguai, onde militares brasileiros realizam exercícios, provocando incômodo no governo paraguaio. Jobim disse que "a voz diplomática é mais forte se tiver atrás de si a capacidade dissuasória das Forças Armadas".

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