Impérios de ferro, punhos de ferro, domos de ferro

Viajar da Síria para a Turquia e Israel traz a questão sobre se há apenas três opções de governo hoje no Oriente Médio

É COLUNISTA, GANHADOR DO PULITZER, AUTOR DE BEIRUTE A JERUSALÉM, THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, GANHADOR DO PULITZER, AUTOR DE BEIRUTE A JERUSALÉM, THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 23h53

No sábado, fui a uma sinagoga próxima da fronteira síria, em Antakya, Turquia. Isso tem estado em minha mente desde então.

Antakya abriga uma pequena comunidade judaica que, nos feriados, ainda se reúne na pequena sinagoga sefardita. Ela é famosa também por seu mosaico de mesquitas e suas igrejas ortodoxas, católicas, armênias e protestantes.

Como pude ir à sinagoga na Turquia, no sábado, quando na sexta-feira, na margem oposta do Rio Orontes, na Síria, havia estado com rebeldes sunitas do Exército Sírio Livre envolvidos numa guerra civil em que alauitas e sunitas sírios estão se matando com base em documentos de identidade, curdos estão criando o próprio enclave, cristãos estão se escondendo e os judeus se foram há muito tempo? O que isso tudo está nos dizendo?

Para mim, suscita a questão sobre se existem hoje apenas três opções de governo no Oriente Médio: Impérios de Ferro, Punhos de Ferro ou Domos de Ferro? A razão para maiorias e minorias terem coexistido em relativa harmonia por cerca de 400 anos quando o mundo árabe era governado pelos otomanos turcos de Istambul foi que os otomanos sunitas, com seu Império de Ferro, monopolizaram a política.

Liberdade. Apesar das exceções, em geral os otomanos e seus representantes locais estavam encarregados de cidades como Damasco, Antakya e Bagdá. Minorias, como alauitas, xiitas, cristãos e judeus, cidadãos de segunda classe, não precisavam se preocupar de ser prejudicados por não governarem. Os otomanos tinham uma atitude de viver e deixar viver com relação a seus súditos.

Quando a Grã-Bretanha e a França dividiram o Império Otomano no Oriente árabe, elas transformaram em Estados as várias províncias otomanas - com nomes como Iraque, Jordânia e Síria - que não correspondiam ao mapa etnográfico. Assim, sunitas, xiitas, alauitas, cristãos, drusos, turcos, curdos e judeus viram-se compelidos a conviver dentro de fronteiras nacionais traçadas para servir aos interesses dos britânicos e franceses. Essas potências coloniais mantiveram tudo sob controle. Mas, quando elas se retiraram, as disputas pelo poder começaram e as minorias ficaram expostas.

Ditadores. Finalmente, no fim dos anos 60 e 70, vimos o surgimento de uma classe de ditadores e monarcas árabes que aperfeiçoou os Punhos de Ferro (e várias agências de inteligência) para se apoderar decisivamente do poder para sua seita ou tribo - e governou pela força sobre todas as outras comunidades.

Na Síria, sob o punho de ferro da família Assad, a minoria alauita governou uma maioria sunita, e, no Iraque, sob o punho de ferro de Saddam, uma minoria sunita veio a governar uma maioria xiita. Mas esses países nunca tentaram construir "cidadãos" reais que pudessem partilhar o poder e se alternar pacificamente nele. Portanto, o que se está vendo hoje nos países do despertar árabe - Síria, Iraque, Tunísia, Egito e Iêmen - é o que ocorre quando não há um Império de Ferro e o povo se levanta contra ditadores de punhos de ferro.

Estamos vendo disputas pelo poder - até que alguém possa forjar um contrato social de como as comunidades podem partilhar o poder.

Os israelenses responderam ao colapso dos punhos de ferro árabes que os cercam - incluindo a ascensão de milícias com mísseis no Líbano e Gaza - com um terceiro modelo. É o muro que Israel construiu ao seu redor para isolar a Cisjordânia, combinado com seu sistema antimísseis Domo de Ferro.

Os dois foram extremamente bem-sucedidos, mas com um preço. O muro juntamente com o domo está permitindo que líderes de Israel se isentem de sua responsabilidade de pensar criativamente uma solução para seu próprio problema de maioria-minoria com os palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

Estou espantado com o que vejo aqui politicamente. Na direita, o Partido Likud, a velha liderança que ao menos se conectava com o mundo, falava inglês e respeitava a Suprema Corte de Israel, foi varrida para o lado na última eleição primária por um grupo ascendente de assentados ativistas de extrema direita que está convencido - graças, em parte, ao muro e ao domo - de que os palestinos não são mais uma ameaça e ninguém poderá forçar a retirada dos 350 mil judeus que vivem na Cisjordânia.

O grupo de extrema direita que hoje governa Israel é tão arrogante, e tão indiferente às preocupações americanas, que anunciou planos para construir um enorme grupo de assentamentos no coração da Cisjordânia - em retaliação à votação na ONU para conceder o status de Estado observador aos palestinos - apesar de os Estados Unidos terem feito tudo que puderam para bloquear essa votação e os assentamentos comprometerem qualquer possibilidade de um Estado palestino contíguo.

Nesse ínterim, com algumas exceções, o domo e o muro isolaram a esquerda e o centro israelenses dos efeitos da ocupação israelense de tal forma que seus principais candidatos para as eleições de 22 de janeiro - incluindo os do velho Partido Trabalhista de Yitzhak Rabin - não estão nem sequer propondo ideias de paz, mas simplesmente admitindo a primazia da direita nessa questão e focando na redução do preço das moradias e o tamanho das classes escolares. Um líder assentado contou-me que o maior problema na Cisjordânia hoje são os "engarrafamentos de trânsito".

Agrada-me que o muro e o Domo de Ferro estejam protegendo os israelenses de inimigos que lhes desejam fazer mal, mas temo que o muro e o Domo de Ferro também os estejam cegando para as verdades que eles precisam urgentemente enfrentar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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