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Importante aliado do Ocidente, líder do Chade é morto em combate

Ele morreu um dia depois de conquistar seu sexto mandato, com 79% de apoio; em vez de fazer um discurso da vitória, ele estava em um campo de batalha para enfrentar os rebeldes

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2021 | 16h45

NDJAMENA - Idriss Déby, o veterano presidente do Chade, governou o país com mão de ferro por 30 anos. Ele morreu nesta terça-feira, 20, um dia depois de conquistar seu sexto mandato, com 79% de apoio. Em vez de fazer um discurso da vitória, ele estava em um campo de batalha para enfrentar os rebeldes. Foi ferido e morreu. 

O ditador, recentemente promovido a marechal, tinha o hábito de vestir o uniforme militar e se juntar aos soldados. No último fim de semana, de acordo com informações do regime, ele visitou as tropas na linha de frente depois que rebeldes baseados na fronteira norte da Líbia avançaram centenas de quilômetros em direção a Ndjamena, capital do Chade.

"O marechal Idriss Déby Itno, como fazia cada vez que as instituições da república eram gravemente ameaçadas, assumiu o controle das operações durante o heróico combate liderado contra os terroristas da Líbia. Ele foi ferido durante os combates e morreu ao ser repatriado para Ndjamena", disse o porta-voz das Forças Armadas.

Com a morte do ditador, o Parlamento do Chade foi dissolvido, e as autoridades impuseram um toque de recolher em todo o país das 18h às 5h. Segundo o regime, "as medidas foram tomadas para garantir a paz, a segurança e a ordem republicana". Ele foi substituído por um conselho de militares liderado por seu filho, Mahamat Idriss Déby Itno.

Segundo relatos de repórteres das agências de notícias AFP e Reuters, parte da população de Ndjamena entrou em pânico quando soube da morte de Déby, temendo que um conflito estourasse na capital. Na segunda-feira, o Exército chegou a posicionar tanques de guerra nas principais avenidas, o que levou muitos pessoas a deixarem a cidade, congestionando as estradas que levam a outras regiões do país.

Para Nathaniel Powell, autor de um livro sobre o envolvimento militar francês no Chade, a morte de Déby pode significar uma enorme incerteza para o país, mas o rápido anúncio da criação de um conselho militar liderado pelo filho do ditador indica a continuidade do regime.

"Isso provavelmente visa impedir contrariar qualquer tentativa golpistas interna das forças de segurança do establishment e reassegurar aos parceiros internacionais do Chade — especialmente a França, mas também os EUA — que eles ainda podem contar com o país para suas contínuas contribuições aos esforços antiterroristas", disse Powell à Reuters.

Para os países ocidentais, Déby e o Chade, localizado entre Líbia, Sudão e República Centro-Africana, eram aliados na luta contra grupos militantes islâmicos, incluindo facções ligadas ao Boko Haram, à Al Qaeda e ao Estado Islâmico. A França, por exemplo, construiu em Ndjamena sua base militar de combate ao terrorismo no Sahel que, em fevereiro, recebeu de Déby um reforço de 1.200 soldados chadianos que se juntaram aos mais de 5 mil franceses.

"A França perdeu um amigo corajoso", disse o gabinete do presidente da França, Emmanuel Macron, por meio de um comunicado, elogiando o "forte apego à estabilidade e integridade territorial do Chade" expresso por Déby, ao mesmo tempo em que pediu um rápido retorno ao governo civil e uma transição pacífica.

Apesar dos elogíos de Paris, o ditador era acusado de comandar um regime autoritário, que tortura e assassina adversários e persegue a imprensa. O país também é considerado um dos mais corruptos no mundo —no ranking da ONG Transparência Internacional sobre o tema, o Chade aparece na 160ª posição entre 180 nações avaliadas

Internamente, Déby vinha lidando com o crescente descontentamento público relacionado principalmente à gestão da riqueza gerada pelo petróleo do Chade e à repressão a dissidentes. Em 2018, o ditador aprovou uma nova Constituição que permitiria sua permanência no poder até 2033, quando completaria 81 anos.

Antes da última eleição, realizada em 11 de abril, disse: "Sei de antemão que vencerei, como fiz nos últimos 30 anos." De acordo com os resultados oficiais do pleito, Déby recebeu 79% dos votos.

Sua carreira militar começou na década de 70, quando o Chade estava imerso em uma longa guerra civil. Após um treinamento na França, voltou a seu país em 1978, dando seu apoio a Hissène Habré, que assumiria o poder em 1982, depois de conspirar para depôr o então chefe de Estado Goukouni Oueddei.

Déby conquistou a confiança de Habré e tornou-se chefe das Forças Armadas durante um regime acusado de matar 40 mil opositores e torturar 200 mil pessoas em oito anos. Mais tarde, porém, seguiu os passos do antigo líder e comandou uma campanha militar que derrubou Habré em 1990, com apoio da Líbia de Muamar Kadafi. /AFP, REUTERS e EFE 

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