EFE/ABI
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Imprensa boliviana denuncia 'lei contra a mentira' de Evo como tentativa de silenciar críticos

Para sindicato dos jornais do país e para a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), iniciativa do presidente socialista resultará na restrição da liberdade de expressão no país; deputada sugere que lei possa ser aplicada também na internet

O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2018 | 15h54

LA PAZ - Sindicatos de imprensa da Bolívia e a SIP estão em alerta depois de o presidente Evo Morales anunciar que enviará ao Congresso uma "lei da mentira", que consideram ser uma ameaça à liberdade de expressão.

Evo, que governa o país desde 2006 e é favorito para a eleição do próximo ano, é frequentemente criticado na imprensa e nas redes sociais. Ele acusa a oposição de propagar mentiras contra sua administração.

"Vamos projetar a lei contra a mentira porque já é hora de moralizar (os meios de comunicação)", disse o presidente esquerdista em entrevista recente ao diário El Deber, ratificando uma ideia lançada em agosto.

A Associação Nacional da Imprensa (ANP, em espanhol), que agrupo donos de diários do país, rechaçou a proposta afirmando que afeta as "liberdades constitucionais de todos os cidadãos, não apenas dos jornalistas e dos veículos de comunicação".

Já a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que reúne os diários do continente, disse que este tipo de iniciativa tem como objetivo "silenciar" os meios de comunicação. "Quando um mandatário é incomodado por denunciar de corrupção e pelas opiniões contrárias, geralmente promove a aprovação deste tipo de estatutos com a intenção de silenciar e censurar os críticos", disse o presidente da SIP, Gustavo Mohme.

Diante destas críticas, Evo respondeu: "Por que você vai se preocupar? Se você é um mentiroso, você pode se preocupar, a preocupação faz de você um mentiroso confesso porque se você não mentir, não há razões."

Pouco depois, usou sua conta no Twitter para dizer que "os meios (de comunicação) devem defender os interesses da pátria, não os de seus proprietários". "O jornalista deve estar sempre do lado da verdade, junto ao povo."

A ministra de Comunicação da Bolívia, Gisela López, destacou que o código de ética da ANP, "em seu artigo primeiro, adverte que 'a mentira, os rumores, as versões de corredores de escritórios públicos ou privados não deveriam ser publicadas porque afetam a credibilidade e seriedade dos meios'".

Dias antes, Evo provocou jornalista sobre esta questão ao dizer que na próxima entrevista coletiva verificaria se os comunicadores tinham uma credencial do partido governista, o Movimento ao Socialismo (MAS), para saber se eles são "anti-imperialistas ou anticapitalistas ou pró-imperialistas, pró-capitalistas".

O ex-presidente boliviano Carlos Mesa (2003-2005), que é jornalista e historiador, considerou a proposta de Evo como um "novo instrumento para restringir mais os direitos constitucionais de todos". Segundo Mesa, a aprovação de uma "lei contra a mentira é uma decisão já tomada, pois MAS tem domínio absoluto do Congresso".

Também nas redes sociais

A senadora governista Adriana Salvatierra adiantou que a nova lei "não deve abranger apenas os meios de comunicação, mas também as redes sociais". Segundo Adriana, nas redes sociais "são cometidos vários delitos" e, por falta de uma lei, membros da oposição "difamam e caluniam qualquer pessoa".

Os governistas do MAS discutem a ideia de legislar sobre as redes sociais desde 2016, depois de um referendo ter negado a Evo a possibilidade de concorrer a um quarto mandato nas eleições do ano que vem. Posteriormente, o Tribunal Constitucional deu ao presidente boliviano luz verde para uma nova candidatura.

O presidente aymara foi afetado pouco antes da votação pela revelação de que sua ex-namorada Gabriela Zapata trabalhou como diretora da empresa chinesa CAMC, que recebeu contratos públicos avaliados em US$ 560 milhões para executar obras no país.

A história se espalhou rapidamente, impulsionada também pela suspeita de que os dois teriam tido um filho, o que depois foi desmentido pelas autoridades e pela própria Gabriela.

Recentemente, o MAS lançou um grupo com 80 ativistas cibernéticos, conhecidos como "guerreiros digitais", para informar "com a verdade e para responder às mentiras da oposição", segundo Grover García, líder do partido. / AFP

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