Imprensa dos EUA critica excessos e erros militares

Nos primeiros meses da guerra contra o terrorismo no Afeganistão, a grande imprensa dos EUA apoiou as ações militares americanas e contribuiu para consolidar o forte respaldo que a opinião pública deu e continua dando à estratégia escolhida pelo presidente George W. Bush. O ceticismo exagerado de algumas análises iniciais sobre as dificuldades que as forças americanas teriam para articular as diferentes facções da Aliança do Norte e remover o Taleban acabou desacreditando os poucos críticos, depois do fulminante sucesso das operações militares e da instalação de um governo provisório em Cabul.Mas, com a guerra entrando agora na sua fase mais difícil, na qual não há alvos óbvios e a caça aos terroristas torna-se uma busca de agulha em palheiro, os jornais voltaram a expor o que não vai bem na campanha americana e a fazer perguntas difíceis. Pela primeira vez desde os ataques de 11 de setembro, o Washington Post e o New York Times cobraram explicações da Casa Branca e do Pentágono sobre uma série de incidentes envolvendo alegações de maus-tratos de presos por soldados americanos e ações militares contra alvos errados, que resultaram na morte de algumas dezenas de civis."Pode ser mesmo que todos esses perturbadores relatos sejam incorretos, em parte ou no todo, mas o que é mais perturbador no momento é a manifesta relutância do Pentágono de responder seriamente a eles", afirmou o Post em editorial, referindo-se aos vários incidentes. O jornal citou "crescentes indícios" de que "aviões e comandos dos EUA atacaram e mataram pessoas inocentes várias vezes nos últimos dois meses". Entre os exemplos, o Post citou um ataque aéreo a um comboio de líderes locais em dezembro, quando eles viajavam a Cabul para a cerimônia de instalação do "ardentemente pró-americano" presidente provisório Hamid Karzai. O próprio Karzai confirmou este episódio e deu crédito a relatos de habitantes da região de Oruzgan sobre incursões aéreas americanas contra forças que apóiam o governo provisório. Esta semana, alguns dos 27 ex-prisioneiros libertados por tropas americanas na mesma cidade denunciaram aos repórteres que foram brutalmente agredidos pelos soldados durante seu período de encarceramento.Os dois jornais notaram que o uso de bombas de alta precisão provavelmente reduziu o número de erros trágicos que ocorrem em qualquer ação militar em larga escala.Mais duro, o Post responsabilizou o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, pela atitude de pouco caso adotada por Washington diante desses relatos. "Em suas entrevistas coletivas pela televisão, (Rumsfeld) descontou os relatos sobre baixas civis como propaganda terrorista", afirmou o jornal. "Contra todos os testemunhos, e sem fornecer nenhuma prova em contrário, os porta-vozes dos EUA continuam a insistir que a delegação que viajava para a posse de Karzai era um alvo legítimo." No início da semana, o Pentágono manteve a versão oficial segundo a qual todos os mortos pelo ataque de mísseis eram membros das organização terrorista Al-Qaeda, "apesar de os funcionários admitirem que não haviam determinado as identidades dos mortos".Uma explicação possível do incidente é que os comandantes que ordenaram a ação agiram com base em informação falsa propositalmente fornecida por líderes de uma facção para provocar um ataque americano contra membros de um grupo rival. O Times afirmou que, se isso se comprovar, os EUA devem exigir a punição dos informantes. "Se tropas americanas maltrataram prisioneiros, conforme alegado, elas devem ser apropriadamente disciplinadas."Leia o especial

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