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Imprensa mundial debate publicação de fotos de bebê sírio morto em naufrágio

Maioria dos jornais britânicos optou por publicar a imagem mais forte da tragédia - o corpo do bebê estendido na praia - como maneira de pressionar a opinião pública e o governo de David Cameron

O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2015 | 10h01

As imagens chocantes do bebê sírio Aylan Kurdi, encontrado morto na quarta-feira,2, em uma praia da Turquia após o naufrágio de um barco de imigrantes, provocaram um intenso debate sobre a sua divulgação na imprensa mundial. 

A maioria dos jornais britânicos optou por publicar a imagem mais forte da tragédia - o corpo do bebê estendido na praia - como maneira de pressionar a opinião pública e o governo do premiê David Cameron a lidar de maneira mais eficaz com a questão, uma vez que o país é um dos principais destinos dos imigrantes que fogem de conflitos no Oriente Médio e Norte da África. 

Foi o caso do Independent. Com a manchete "O filho de alguém", o jornal  alertou para uma grande catástrofe humana e perguntou: "Acreditamos realmente que o problema não é nosso?"

Outros jornais, como o Times e o Guardian, optaram por uma foto menos explícita, mas não menos trágica, na qual um policial retira o corpo do bebê em seus braços. "O Independent tomou a decisão de publicar essas imagens porque em meio a palavras superficiais sobre a "atual crise migratória" é muito fácil esquecer a realidade da situação desesperadora que esses refugiados enfrentam. 

Nos Estados Unidos, houve divisão quanto a publicação das fotos. O New York Times e o Wall Street Journal optaram pela foto menos chocante, enquanto o Los Angeles Times e o Washington Post publicaram a imagem mais forte do bebê morto. 

"A imagem não é ofensiva, nem sangrenta, nem de mau gosto. É apenas de cortar o coração e um testemunho dessa tragédia que se desenvolve na Síria, Turquia e Europa", disse Kim Murphy, editora do Los Angeles Times

Sites como o Vox Media optaram por evitar a publicação das imagens, por entender que a imagem da criança deve ser protegida. "Entendo os argumentos a favor da publicação, mas a imagem contém um certo aspecto viral que pode torná-la mais uma superexposição desnecessária que promover a compaixão", disse o diretor do Vox, Max Fisher. "No fim das contas, decidi que não deveria publicá-la porque a criança não teve como decidir se deveria ou não tornar-se um símbolo."

O diário Público, de Portugal, também explicou a decisão de publicar a foto mais chocante em editorial: "Há bons argumentos para não a mostrar. É uma imagem violenta, logo evitável; há formas mais subis de mostrar a realidade sem cair no sensacionalismo, “sem mostrar o horror”, como diz um colega fotógrafo; temos de respeitar a dignidade daquela criança. Mas há melhores argumentos para a mostrar. Às vezes, é nosso dever publicar imagens impressionantes. Vamos de forma paternalista proteger o leitor de quê? De ver uma criança morta à borda da água, numa praia europeia, com a cara na areia? Não é igualmente doloroso ler sobre estas tragédias? Na escrita, não escondemos a realidade. Queremos, pelo contrário, recolher o máximo de fatos. Por que é que na imagem usamos critérios diferentes? Por que ter pudor na imagem, mas não na palavra?"

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