AFP PHOTO / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Drew Angerer
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‘Impressiona a denúncia envolver figuras centrais’

Assessora que deixou Departamento de Justiça por discordar de Trump acredita que a apuração pode durar anos

Entrevista com

Hui Chen

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2017 | 05h00

O acordo de delação premiada com um ex-assessor da campanha de Donald Trump integra a cartilha clássica de construção de casos contra suspeitos de cometerem crimes federais nos EUA, afirma Hui Chen, que durante dois anos teve a missão de questionar empresas investigadas pelo Departamento de Justiça dos EUA e exigir que elas tivessem programas que garantissem o cumprimento de leis e regulamentos, algo que no jargão jurídico se chama compliance. 

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Nomeada no governo Barack Obama, Chen concluiu que seria impossível continuar a desempenhar seu trabalho com o novo ocupante da Casa Branca. Ela deixou a função em julho. Sua primeira atividade profissional de volta ao setor privado foi uma viagem ao Brasil, em agosto, durante a qual fez palestras a empresários, advogados e integrantes da Controladoria-Geral da União. 

Qual é a importância da denúncia contra Manafort e Gates? 

Esse é só o começo das investigações. Casos dessa magnitude normalmente demoram anos. É impressionante que tenhamos a denúncia envolvendo figuras centrais da campanha de um presidente em exercício seis meses depois da nomeação de um procurador especial. 

Manafort e Gates se declararam inocentes. Isso significa que não farão delações premiadas?

A negociação de delações é algo rotineiro, que pode ocorrer da metade da investigação até à metade do julgamento. Eu acredito que haverá negociações nesse sentido.

A denúncia contra ambos não faz referência à Rússia ou à campanha de Trump, objeto inicial da investigação.

Procuradores colocam nas denúncias aquilo que podem provar, além de qualquer dúvida razoável, no momento em que elas são apresentadas. As investigações continuam e as denúncias podem ser – e normalmente são – emendadas.

Qual a importância da delação de Papadopoulos?

A delação sugere que ele está cooperando com o procurador especial, Robert Mueller. Isso é comum em investigações federais: fechar acordos com membros menos importantes de uma conspiração para que eles deem informações sobre o envolvimento dos que estão em posições mais relevantes. É assim que são construídos casos de crime organizado.

Quais são os aspectos mais problemáticos?

Trump representa um país, enquanto suas empresas têm negócios com governos estrangeiros. Quando ele lida com esses governos, ele age de acordo com seus interesses empresariais ou dos EUA? Também há sua conduta em relação à investigação da Rússia e à demissão de James Comey (ex-diretor do FBI). Se uma companhia me dissesse que seu chefe de investigação estava investigando um amigo do CEO, que o CEO disse para ele abandonar a investigação e o demitiu quando ele se recusou, eu teria sérias dúvidas sobre essa empresa. E isso foi exatamente o que Trump fez. 

Por que a sra. decidiu deixar o Departamento de Justiça?

Minha função era ajudar promotores a avaliar se companhias estavam comprometidas com ética e compliance. Quando temos um ocupante da Casa Branca que desrespeita esses dois princípios, isso é impossível. Era hipócrita exigir que companhias fizessem coisas que Trump não está fazendo.

Seu primeiro ato profissional depois de deixar o governo foi uma viagem ao Brasil. Algo a surpreendeu no combate à corrupção? 

Eu sabia que desde o início das investigações da Petrobrás havia aumentado o interesse de companhias por compliance. Muitos estão sensíveis a essa questão, mas é muito novo. 

O aumento de compliance leva à redução da corrupção? 

Há provavelmente uma boa correlação. Se você é uma autoridade corrupta quando todo mundo está tentando ser ético e ter respeito pela lei, é difícil dizer “se você não me pagar propina alguém pagará”. 

Antes da Lava Jato, o jogo era “todo mundo está pagando”?

Sim, agora tem de mudar para “ninguém pagará”, o que toma tempo. Mas não se pode deixar passar o momento. É preciso ter um sentido de urgência e fazer o maior número possível de mudanças no comportamento das pessoas e das empresas, na lei e na estrutura.

 

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