REUTERS/John Vizcaino
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‘Impunidade continuará causando violência'

Uribe critica pacto com as Farc e afirma que caso população rejeite acordo nas urnas termos poderão ser mudados

Entrevista com

Álvaro Uribe, senador e ex-presidente da Colômbia

Fernanda Simas, Enviada especial / Cartagena, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2016 | 22h13

No dia em que o governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assinaram o acordo histórico de paz em Cartagena, o senador opositor e ex-presidente Álvaro Uribe fazia planos políticos para convencer a população a votar ‘não’ no plebiscito que questionará se os colombianos aceitam o acordo assinado ontem. “Se o ‘não’ ganhar, propomos dar proteção às Farc, exigir que  suspendam todos os crimes, porque não suspenderam a extorsão nem o narcotráfico. Vamos modificar parte dos acordos”, afirmou ao Estado, momentos antes da assinatura.

Uribe, forte opositor às negociações realizadas em Havana nos últimos quatro anos, argumenta que, se for aprovado, o acordo dará “impunidade total às Farc”. Ontem pela manhã, o senador saiu em uma caminhada por Cartagena com partidários usando roupas brancas e camisetas com a frase “a Colômbia não se rende”. Para Uribe, presidente Santos, de quem foi padrinho político em 2010, mudou seus ideais. “Se (o governo atual) tivesse mantido a rota que traçávamos, o país estaria em paz, pois a base guerrilheira teria se desmobilizado, como vinha ocorrendo.”

Por que dizer ‘não’ ao acordo de paz?

As Farc são o maior cartel de cocaína do mundo, o terceiro grupo terrorista em riquezas no mundo, sequestraram milhares de colombianos, recrutaram 11.700 crianças, violaram 6.600 mulheres, colocaram inumeráveis carros-bomba. E dão impunidade total aos maiores criminosos. O México não daria impunidade aos cabeças de cartéis das drogas. Não pedimos prisão para o guerrilheiro de baixo escalão, mas a impunidade aos cabeças das Farc vai seguir causando violência.

O que o sr. faria diferente?

Em 2010, quando elegemos o atual presidente, o país vinha bem, por isso o elegeram. Ele era  nosso candidato e mudou totalmente. Se tivesse mantido a rota que traçávamos, o país estaria em paz porque a base guerrilheira teria se desmobilizado, como vinha ocorrendo. Os cabeças estariam em Havana ou Caracas, mas não aqui. Aqui não teriam capacidade criminal. Esse acordo tem muitos inconvenientes. Primeiro, os EUA nunca dariam elegibilidade a Bin Laden, por que temos de dar aqui para as Farc? Guzmán, do Sendero Luminoso, também não teria impunidade ou elegibilidade (no Peru), por que aqui? Esse acordo cria uma polícia política que cria restrições de liberdade em favor da paz. Esse é um caminho castrista, chavista. Além disso, haverá mais impostos para esse povo colombiano. Converte as Farc em fator determinante de expropriações, vamos em direção a uma economia venezuelana. O acordo dá a possibilidade de as Farc intervirem em todas as decisões do Estado relativas à economia primária.

O que o senhor quer dizer com uma polícia política que restringirá liberdades?

Estamos de acordo que se proteja os desmobilizados das Farc, mas a entidade que criaram para isso vai supervisionar as formas de vida dos funcionários públicos, as empresas privadas de vigilância. Para nos perseguir, aos que chamam de inimigos da paz. Segundo as Farc, o governo vai perseguir os sucessores do paramilitarismo. Isso é muito grave, encomendar  políticas de segurança a uma entidade da qual participam o terrorismo. E permitem a setores de extrema-esquerda acusarem militares, policiais, com o mesmo poder acusatório que as autoridades de Justiça. Além disso, se cria um tribunal para as Farc que ultrapassa toda a institucionalidade colombiana de Justiça. Essas falhas nunca poderão ser canceladas no futuro.

Acredita que as Farc têm direito de participar da política colombiana?

Se a Colômbia tivesse sido uma ditadura e eles uma insurgência civil, sim. Mas não foi o caso. A Colômbia tem uma democracia respeitável e as Farc foram um grupo narcoterrorista. Nenhum país democrático permite que responsáveis por crimes de lesa-humanidade exerçam o direito de elegibilidade política. Além disso, vão cobrar mais impostos do povo colombiano para esse deboche de Santos e financiar o partido que criará as Farc, o partido do terrorismo. Somos contrários à elegibilidade política aos que cometeram crimes graves, ninguém permitiria isso no mundo.

O senhor era o padrinho político de Santos...

Santos se apresentou como o grande opositor de Hugo Chávez e acabou como aliado dele, se apresentou como grande opositor de terrorismo e acabou aceitando as Farc. Graças ao nosso governo, o país havia reduzido os índices de narcotráfico a 47 mil hectares, agora está novamente em 200 mil hectares. A economia vai mal, cresceu muito o número de endividados, os impostos aumentam, a economia desacelerou.

Qual é o seu caminho para a paz na Colômbia?

Se o ‘não’ ganhar, nós propomos dar proteção às Farc, exigir que elas suspendam todos os delitos, porque não suspenderam a extorsão  nem o narcotráfico. Vamos modificar parte dos acordos. Mas se ganhar o ‘sim’, a situação é muito grave porque tudo se torna parte da Constituição, 297 páginas. Temos de lutar para ter um novo governo em 2018, dar proteção às Farc, mas remover da Constituição tudo que é necessário para que esse país não siga o caminho da Venezuela. Além disso, a aprovação de Santos caiu de 50% para 13%, não nos permitiu fazer nenhuma pergunta, nega debate, nega dinheiro para a publicidade do ‘não’. Hoje, o que existe é uma enorme força do governo coagindo os eleitores pelo ‘sim’. Os prefeitos e governadores precisam apoiar o ‘sim’ ou não recebem recursos do governo. Dói a presença da comunidade internacional hoje, faltando cinco dias para o plebiscito.

Como foi a manifestação de hoje que o senhor realizou?

Fizemos uma caminhada muito restrita, pois a polícia não nos deixava avançar. Foi muito grave isso.

Como foi a negociação do seu governo com os paramilitares em 2003?

Essa negociação ofereceu as mesmas garantias aos paramilitares e às Farc. Aqueles de baixo escalão não foram presos, os cabeças entregavam o dinheiro, reparavam as vítimas, pediam perdão. Extraditei por narcotráfico  14 deles que não cumpriram o determinado. Mas não houve concessão de elegibilidade política e não se mudou a Constituição. Agora dão impunidade total às Farc por todos os crimes.

Há algum ponto bom nesse acordo?

Um que poderia ser bom é o das vítimas, mas quando paramos para pensar, as Farc não têm dinheiro para repará-las, as Farc não se arrependem, não pedem perdão, justificam os crimes. O mau exemplo da impunidade causa mais danos, isso não respeita o direito das vítimas à não repetição da violência. Quando não há arrependimento nem perdão, não há condição de reconciliação.

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