Andrei Netto / Estadão
Andrei Netto / Estadão

Impunidade nutre revolta pré-eleitoral na França

Jovens da periferia, parentes e amigos de vítimas, se unem para protestar; movimento repercute em campanha

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2017 | 05h00

PARIS - Em 19 de julho, Adama Traoré terminou a noite de seu 24.º aniversário estirado no chão. Ele não estava alcoolizado ou drogado em uma festa entre amigos, mas morto em uma delegacia de polícia militar na cidade de Beaumont-sur-Oise, a 45 quilômetros ao norte de Paris.

O jovem havia sido asfixiado pelo peso do corpo de três agentes que o dominaram após pará-lo para controle de identidade. A prática ainda é empregada na França, mas proibida em outros países. Seis meses depois da tragédia, um dos irmãos da vítima está detido e uma investigação ainda sem resultados sobre as circunstâncias da morte segue seu curso, sem que nenhum policial tenha sido preso.

No caso mais chocante das últimas semanas, um jovem de 22 anos, Théo L., foi sexualmente violentado com um cassetete por quatro policiais que o pararam mais uma vez para uma verificação de identidade. A tortura a céu aberto - filmada por um cinegrafista amador e por circuitos internos de TV da cidade de Aulnay-sous-Bois -, indignou o país e lançou um novo período de revolta na periferia de Paris. 

Protestos violentos, marcados por vandalismo e por choques entre jovens e tropas, têm ocorrido com regularidade, inspirados por grupos de black blocs e slogans como “Todo mundo detesta a polícia”. O movimento pacífico Justice pour Adama, ganha ares de luta pelos direitos civis.

Os casos são reflexo de um padrão de atuação, de acordo com o testemunho de organizações não governamentais e de jovens ouvidos nas últimas duas semanas pelo Estado em municípios com alta densidade de descendentes de imigrantes negros, árabes e muçulmanos. 

“Há uma falta de transparência. Não há números sobre o uso da força, nem informações sobre feridos ou mortos nas operações policiais”, diz Aline Daillère, responsável de Polícia e Justiça da ONG Ação Cristã pela Abolição da Tortura. “Casos de violência policial têm sanções menos severas do que quando não envolvem forças de segurança. Há policiais condenados a 6 meses de prisão com liberdade condicional por homicídio involuntário.”

Assa Traoré, ativista de direitos civis, lidera o movimento Justice pour Adama. Ela chama a atenção do país não apenas para a agressão da qual sua família foi vítima. Irmã do jovem morto na delegacia de polícia, Assa tornou-se um dos símbolos nacionais em defesa da liberdade de outro de seus irmãos, Bagui, preso com a mulher, Sarah. Ambos foram acusados de tentativa de homicídio de policiais numa manifestação.

Aos 31 anos, educadora em uma fundação de proteção de crianças, Assa luta para que policiais sejam julgados. “Bagui e Sarah são as primeiras testemunhas das circunstâncias da morte de Adama. Eles são perseguidos”, acusa. Ela também afirma que a polícia tentou adulterar as circunstâncias da morte do irmão, acusando-o de estar sob o efeito de drogas e do álcool - dados desmentidos pela perícia. 

“Há um problema social grave na França, de integração das populações magrebinas e negras. Estamos caminhando para uma sociedade dividida, como a dos EUA”, diz Nader Alami, psicólogo especializado em muçulmanos de periferia. “Cada vez mais policiais se dizem partidários da Frente Nacional (partido nacionalista). Há clima de acerto de contas da polícia sobre os jovens de bairros e cidades pobres.”

Em um país que viveu três semanas de revoltas de massa nas periferias em 2005, com réplicas em 2006 e 2007, o novo levante preocupa as autoridades e tornou-se tema na campanha para a eleição de abril. Há risco de que um novo caso de violência faça explodir a ira como na morte dos jovens Zyed Benna, descendente de árabes de 17 anos, e Bouna Traoré, negro de 15. Ambos foram eletrocutados em uma central de energia quando fugiam de policiais em Clichy-sous-Bois, em 2005.

O assunto virou um dos motivos de atrito ideológico entre candidatos de esquerda e de direita. Enquanto Benoit Hamon, líder do Partido Socialista (PS), reconhece a existência de um problema de discriminação e de violência de parte da polícia nas periferias, Marine Le Pen, da Frente Nacional, presta sua “total solidariedade” às forças de segurança. 

A beligerância política, somado aos escândalos envolvendo Le Pen e o conservador François Fillon, ajudam a ampliar a tensão social e a sensação de que a Justiça só pune jovens da periferia - e deixa livre quem pratica crimes de colarinho branco.

Autoridades. Depois de um primeiro momento de hesitação sobre os recentes casos de violência policial na França, o Ministério do Interior reuniu há duas semanas chefes e subchefes de polícia para discutir a situação nos bairros onde a violência é mais pronunciada.

A reunião teve a participação da secretária de Estado de Polícias Municipais, Hélène Geoffroy, e discutiu "as dificuldades" enfrentadas pela polícia e "as iniciativas adotadas para aproximar a polícia da população". O objetivo, segundo o Ministério do Interior, é "garantir o reforço dos vínculos de confiança que unem as forças de segurança e a população". 

Sobre o caso Théo, após uma primeira investigação em que considerou a agressão sexual como " acidental ", a Inspeção Geral de Polícia Nacional (IGPN), a corregedoria de polícia francesa, abriu uma nova investigação que resultou na prisão dos quatro policiais e na denúncia de um deles por estupro. 

A respeito do caso Adama, o Ministério do Interior afirma que a família Traoré " tem direito à verdade sobre as circunstâncias da morte ", mas pede que os protestos aconteçam de forma pacífica. O caso foi transferido no final de outubro do Ministério Público de Versalhes para o de Paris, e o procurador de Pontoise, Yves Jannier, primeiro responsável pelo caso, foi transferido, o que foi interpretado como uma sanção ao magistrado. A nova investigação está em curso, mas Bagui, irmão de Assa e Adama, e Sarah, sua mulher, continuam presos.

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