Incendiários e bombeiros

Conflitos sectários não são inevitáveis. São líderes que atiçam a conflagração. Com instituições fortes, diferentes grupos conseguem conviver

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2014 | 02h04

Por que, afinal, se combate no Oriente Médio, hoje? Será um conflito sectário (sunitas contra xiitas), nacional (israelenses contra palestinos, e árabes contra persas)? Ou a razão é mais profunda? Discuti a questão com Nader Mousavizadeh, ex-funcionário da ONU e um dos fundadores da Macro Advisory Partners, empresa de assessoria geopolítica, e ele pôs a questão de outra forma: "A guerra é entre incendiários e bombeiros".

Os incêndios sectários e nacionalistas do Oriente Médio não são um fenômeno natural. "São propositais, ateados por líderes para chamar a atenção para objetivos políticos, econômicos e de segurança limitados e míopes", diz Mousavizadeh. No Ocidente, "uma mescla de fadiga e fatalismo ameaça criar um discurso sobre a irreversibilidade do conflito sunita-xiita. É uma mentira em termos históricos, que isenta os líderes da região do dever de usar o poder de maneira legítima". As divisões sectárias são um fato, mas a conflagração não é inevitável. "Se os incêndios não fossem alimentados, acabariam se apagando", afirma.

Como? O presidente sírio, Bashar Assad, é um incendiário. Diante de um protesto pacífico contra seu governo tirânico, abriu fogo contra os manifestantes, na esperança de que isso levasse a maioria sunita a reagir com violência contra seu regime de minoria alauita/xiita. Funcionou, e agora Assad se apresenta como o defensor de uma Síria secular contra fanáticos sunitas.

O premiê iraquiano, Nuri al-Maliki, é um incendiário. Assim que os EUA saíram do Iraque, mandou prender líderes sunitas, privou-os de orçamento e parou de pagar os membros das tribos sunitas que se levantaram contra a Al-Qaeda. Quando isso desencadeou a reação sunita, Maliki se candidatou às eleições como o defensor da maioria xiita contra os "terroristas" sunitas. Funcionou.

O general Abdel Fattah al-Sissi do Egito reprimiu violentamente a Irmandade Muçulmana e então se candidatou à presidência como o defensor contra os "terroristas" da Irmandade.

Extremistas palestinos que sequestraram três jovens israelenses queriam acabar com a esperança de reinício das conversações de paz e criar problemas para os palestinos moderados. Mas contaram com ajuda: os defensores dos colonos judeus do gabinete israelense, como Naftali Bennett e o ministro da Habitação, Uri Ariel, também são incendiários. Ariel anunciou a construção de 700 novas unidades habitacionais para judeus no lado árabe de Jerusalém - o objetivo era torpedear o trabalho diplomático do secretário de Estado americano, John Kerry.

Em todos esses lugares há bombeiros - como Tzipi Livni e Shimon Peres em Israel, o ex-premiê palestino Salam Fayyad, Mohammad Javad Zarif no Irã, e o aiatolá Ali al-Sistani no Iraque -, mas agora eles estão às voltas com as paixões desencadeadas pelos incendiários.

É difícil para quem não viveu no mundo árabe entender que xiitas e sunitas do Iraque, Líbano ou Bahrein, muitas vezes fazem casamentos mistos e são apelidados de "sushi". Uma pesquisa da Zogby Research Services, feita em sete países árabes, concluiu que "a grande maioria, em todos os países, é favorável à política americana que busca uma solução negociada do conflito (na Síria). Todos os países se opõem a toda forma de envolvimento militar americano" ou ao envio de armas a grupos opositores.

Recentemente, fiz o discurso de abertura do ano letivo na Universidade Americana do Iraque, no Curdistão. Lá, 70% dos estudantes são curdos, os outros 30% xiitas e sunitas de todo o Iraque. Eles podem e conseguem conviver. É por isso que, apesar de tudo o que se tem falado sobre a divisão do Iraqu, esta nunca foi a preferência da maioria no país.

Harmonia exige ordem, mas não precisa ser ordem férrea. Estas sociedades precisam deixar de ser governadas por punhos de ferro "e adotar instituições férreas no sentido de legítimas, suficientemente fortes para manter unida a estrutura da sociedade", afirmou Mousavizadeh. E isso exige liderança apropriada. "Quando os líderes da região vão a Washington para pedir empenho e intervenção, dinheiro ou armas, deveriam, antes de mais nada, responder à pergunta: 'Você é incendiário ou bombeiro?'" / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITOR

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