REUTERS/Alkis Konstantinidis
REUTERS/Alkis Konstantinidis

Incêndio destrói acampamento de refugiados na ilha grega de Lesbos

Milhares de pessoas estão desabrigadas após estruturas serem consumidas pelas chamas; autoridades gregas investigam causa do incêndio

Marina Rafenberg e Manolis Lagoutaris, AFP, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 12h30

ATENAS - Milhares de imigrantes na ilha grega de Lesbos ficaram sem abrigo nesta quarta-feira, 9, depois de um incêndio de grandes proporções destruir Moria, o maior e mais decadente acampamento de refugiados da Grécia, onde se amontoavam.

Principal entrada de migrantes na Grécia fora da vizinha Turquia, a ilha de Lesbos, no Mar Egeu, - com uma população de cerca de 85.000 habitantes - mergulhou em uma crise sem precedentes. O serviço grego de Proteção Civil declarou "estado de emergência" no local.

O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, expressou sua "tristeza pelos incidentes" e sugeriu que o desastre pode ter ocorrido, devido às "reações violentas contra os controles de saúde", após a detecção de 35 casos de covid-19 no acampamento.

Segundo a agência de notícias grega ANA, que cita fontes anônimas, vários incêndios foram provocados nesta madrugada por imigrantes que se rebelaram contra as medidas de isolamento pelo novo coronavírus.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou "profunda tristeza" e "disposição da União Europeia de ajudar".

Milhares de homens, mulheres e crianças saíram das barracas de campanha e dos contêineres na madrugada. Alguns se refugiaram nos campos de oliveiras ao redor.

"A principal parte do centro de registro de identificação foi completamente destruída, e muitas pessoas estão sem casa", disse o vice-ministro de Migração, Georges Koumoutsakos.

Além desta parte principal, que abrigava cerca de 4 mil pessoas além das instalações administrativas e de abrigo, o campo de Moria se estende por olivais vizinhos, onde cerca de 8 mil pessoas viviam em barracas de campanha que também foram danificadas.

"Foram registrados vários incêndios no acampamento, e as chamas nos cercaram muito rapidamente. Foi uma operação muito difícil", disse à AFP o comandante dos bombeiros da região, Konstantinos Theofilopoulos.

"O que vamos fazer agora?"

Na tarde desta quarta, a maioria dos refugiados e imigrantes estava sentada na estrada que liga o acampamento ao porto de Mitilene, formando longas filas de até três quilômetros. "O que vamos fazer agora? Para onde podemos ir?", lamenta Mahmout, natural do Afeganistão.

Junto com ele, sua compatriota Aisha procura pelos filhos. "Dois estão ali, mas não sei onde estão os outros", suspira.

O ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas, pediu hoje aos países da UE que cuidem dos imigrantes, devido à "catástrofe humana".

A Comissão Europeia anunciou que assumiu a transferência imediata de 400 crianças e adolescentes para a Grécia continental.

"Não existe mais Moria"

De acordo com os bombeiros, o incêndio não causou vítimas, "mas há algumas pessoas levemente feridas, com problemas respiratórios devido à fumaça". A fumaça preta continua saindo do acampamento, que abriga cerca de 12.700 solicitantes de asilo, quatro vezes sua capacidade.

"Não existe mais Moria, foi destruído", disse o vice-governador regional, Aris Hatzikomninos, à rede pública ERT.

Desde meados de março, medidas rigorosas foram impostas nos acampamentos de imigrantes. ONGs de defesa dos direitos humanos fizeram várias críticas, alegando se tratar de uma política "discriminatória", em especial depois que o país começou a entrar no desconfinamento no início de maio.

Na semana passada, as autoridades detectaram o primeiro caso de coronavírus no campo de Moria e colocaram o local em quarentena.

As organizações criticam o campo de Moria por sua falta de higiene e superlotação. Também defendem a transferência dos demandantes de asilo mais vulneráveis.

Distúrbios e confrontos são quase diários. De janeiro a agosto, cinco pessoas foram esfaqueadas em mais de 15 ataques. Em março, uma menina morreu em um contêiner queimado. Em setembro de 2019, duas pessoas faleceram em um incêndio./ AFP

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