Incêndio no Cairo arrasa acervo de Napoleão

Institut d'Egypte, de 1798, é parcialmente destruído em meio a combates de rua; estima-se que 192 mil documentos tenham sido perdidos

CAIRO, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h02

Pelo menos 192 mil livros, coletâneas e ensaios de valor histórico inestimável foram reduzidos a cinzas depois de o prédio do Institut d'Egypte - centro de estudos de egiptologia fundado por Napoleão Bonaparte, no fim do século 18 - ter se tornado palco da disputa pelo poder no Cairo.

Ao longo do fim de semana, vários relatos davam conta de que o acervo histórico, localizado a metros da Praça Tahrir, poderia ter sido parcialmente destruído. Ontem, a extensão da tragédia tornou-se evidente.

"Uma grande parte da história do Egito acabou de ser perdida", lamentou o diretor do instituto, Mohammed al-Sharbouni, à TV estatal. Após o incêndio, historiadores e voluntários, todos vestindo jaleco e luvas cirúrgicas, tentavam identificar os papéis queimados na esperança de salvar alguma coisa.

Entre os documentos destruídos está um compêndio de 24 volumes que reúne informações coletadas por 150 cientistas franceses ao longo de 20 anos. O Description de l'Egypte era considerada a mais completa documentação da civilização, monumentos, biosfera e da vida cotidiana no Egito.

Um mapa do país árabe e da Etiópia, feito em 1753, também foi totalmente destruído, segundo a direção do instituto.

Em 1798, Napoleão lançou uma campanha militar no Egito e na Síria, tentando assegurar o comércio com o Oriente e enfraquecer os elos do Império Britânico com a Índia. Juntamente com o imperador francês, foram centenas de cientistas que conduziram vastos estudos sobre a história e a natureza do Egito. A maior parte desse material havia sido mantida no Institut d'Egypte desde então.

"Essa tragédia equivale à incineração dos livros de Galileo", afirmou Zein Abdel-Hady, que dirige a biblioteca do instituto - e, agora, o "resgate" do acervo -, referindo-se aos papéis do cientista italiano sobre a rotação da Terra, provavelmente queimados no século 17.

Segundo funcionários, o incêndio - provavelmente criminoso - teria começado no sábado, enquanto manifestantes e soldados egípcios enfrentavam-se na vizinha Praça Tahrir.

Quando os bombeiros chegaram, jogaram água nos documentos para apagar o fogo, ampliando a destruição do acervo. Teme-se agora que o teto do prédio ceda de vez.

Abdel-Hady disse que cerca de 50 mil papéis que haviam sido levados provisoriamente à calçada diante da embaixada dos EUA já estão em um prédio que pertence ao instituto. "Não durmo há dois dias e chorei muito ontem. Todo o Egito está chorando", disse Abdel-Hady. / AP

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