AP Photo, File
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Incêndios florestais da Turquia viram munição política em guerra nas redes sociais

Em meio ao rastro de morte e destruição deixado pelo fogo, apoiadores e adversários de Tayyip Erdogan trocam acusações e antecipam campanha eleitoral

Carlotta Gall, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 20h00

ISTAMBUL - Enquanto a Turquia enfrenta os maiores incêndios em décadas, o presidente Recep Tayyip Erdogan se vê diante de um ataque feroz por causa de sua atuação no desastre, assim como questões mais amplas de gestão em um país já afetado pela crise econômica e pela pandemia.

Os incêndios perduraram pelo oitavo dia consecutivo na quarta-feira, agravados pelo calor intenso acompanhado por uma seca prolongada. A nação assistiu horrorizada às imagens na TV e redes sociais, com milhares de pessoas obrigadas a abandonar suas casas, resorts na costa e vilas inteiras, especialmente no Sul, com rebanhos inteiros vitimados pelo fogo.

Com um verão no hemisfério Norte marcado pelo clima extremo, com enchentes na Alemanha e Bélgica e ondas de calor extremo e incêndios na Rússia, Itália, Alemanha, Grécia, Canadá e EUA, a emergência na Turquia deu munição a uma cada vez mais barulhenta e unida oposição a Erdogan. Tensões estão elevadas ao redor da Turquia, onde o governo há muito é acusado de corrupção e incompetência, ampliando os problemas econômicos do país e os efeitos devastadores da pandemia.

Ao menos oito pessoas morreram nos incêndios, e dezenas foram internadas com intoxicação por fumaça e queimaduras. Mais de 170 focos foram localizados, na última semana, em 39 das 81 províncias turcas, queimando centenas de quilômetros quadrados de florestas e destruindo plantações e dezenas de residências.

Entre os mortos estava um casal que aguardava a chegada do filho que vinha resgatá-los, dois bombeiros cujo caminhão capotou em um incêndio e um voluntário que carregava em sua moto água para combater as chamas.

Um outro casal de fazendeiros chorou ao contar, por telefone, como foram deixados sozinhos para combater o fogo, sem ajuda dos bombeiros, quando as chamas atingiram sua vila, Cokertme, na costa do Mar Egeu, no Sudoeste turco. Nurten Bozkurt, de 59 anos, e seu marido, Cengiz, direcionaram seus animais para o mar quando a polícia militar ordenou que saíssem de casa, mas voltaram para tentar salvar sua casa e celeiro, além das casas vizinhas, do fogo.

“Meus olhos e mãos ainda estão queimando”, declarou Cengiz Bozkurt. “Fui ao celeiro, minha mulher ficou em casa. A cada cinco minutos, as chamas caíam no feno e no depósito de esterco.”

Na casa, Nurten Bozkurt encharcava o teto e a varanda sempre que os focos de fumaça apareciam. “Conseguimos. Salvamos 10 ou 15 casas. Não vimos bombeiros”, disse.

Mas a floresta ao redor deles foi dizimada, assim como seus meios de subsistência.

“Ao redor da vila, não restou um lugar que não tenha sido atingido pelas chamas. Nossas maiores perdas foram as oliveiras e os pinheiros. Quase todos se foram”, diz o casal.

Guerra política

O desastre afetou a maior parte dos distritos costeiros atualmente comandados pela maior legenda de oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP), e os prefeitos e autoridades do partido soaram rapidamente o alarme. Contudo, logo reclamaram, em entrevistas e apelos em vídeos, que não recebiam ajuda necessária do governo central - aviões e helicópteros para combater as chamas.

Entre as críticas à administração de Erdogan estão a indecisão sobre o envio de aeronaves para os incêndios e a contratação de apenas três aviões da Rússia para fazer todo o trabalho.

Erdogan tentará a reeleição daqui a dois anos e, apesar de ser o mais popular político da Turquia, vem despencando nas pesquisas. Em um sinal da iminente batalha política, opositores e apoiadores deram início a campanhas coordenadas nas redes sociais. Os críticos atacaram o governo pelo fracasso no combate aos incêndios, e os apoiadores responderam com acusações de que os adversários tentavam minar o Estado.

Uma dessas campanhas, #HelpTurkey (Ajude a Turquia) foi lançada na manhã de segunda-feira e, em questão de horas, chegou a 2,5 milhões de publicações no Twitter. Celebridades se juntaram à iniciativa, pedindo ajuda internacional para combater os incêndios.

Mas ali havia sinais de uma possível coordenação de campanha por trás do esforços, como afirmou Owen Jones, professor associado da Universidade Hamad bin Khalifa, no Qatar, em uma série de publicações no Twitter. Ele descobriu que algumas das contas que impulsionaram a hashtag mudaram seus nomes e desapareceram pouco depois, sendo que muitas pareciam ser falsas, algo já usado em outros casos de manipulação política do tráfego online.

O diretor de comunicações de Erdogan, Fahrettin Altun, acusou a oposição de usar uma campanha orquestrada do exterior para minar o Estado. O governo, que foi acusado de comandar suas próprias campanhas de influência, e seus apoiadores responderam com hashtags como #StrongTurkey (Turquia Forte) e #WeDontNeedHelp (Não Precisamos de Ajuda).

“Essa dita campanha de ajuda, organizada no exterior e de um único lugar, foi inflada com motivações ideológicas, para mostrar o nosso Estado como fraco e indefeso, além de enfraquecer nossa união Estado-nação”, disse Altun, em uma declaração. “Nosso país, a Turquia, é forte.”

A batalha nas redes sociais continuou na quarta-feira, com novas hashtags pedindo a saída de Erdogan chegando aos assuntos mais comentados.

Em discurso na terça-feira, o líder do CHP, Kemal Kilicdaroglu, uniu-se ao coro de críticas, acusando Erdogan de não ter um plano central para enfrentar os incêndios florestais e alertando que a Turquia deveria se preparar imediatamente para crises climáticas no futuro.

Ele também atacou o governo por insinuar que seus críticos agiam contra o Estado. “Quando as pessoas cujas almas muito machucadas pedem ajuda, em vez de tentar entender seus pontos de vista, ele as chama de terroristas e diz que fazem parte de uma tática usada apenas por governos incompetentes”, afirmou.

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