Josh Edelson/AFP
Josh Edelson/AFP

Incêndios na Costa Oeste entram de vez na campanha presidencial

Para Trump, crise é uma chance de mobilizar poderes federais; para Biden, uma oportunidade de acusar seu oponente de não fazer o suficiente

Dino Grandoni*, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 03h00

Os incêndios florestais recordes na Costa Oeste estão finalmente explodindo na corrida presidencial entre o presidente Donald Trump e Joe Biden - apresentando uma crise urgente que é impossível ignorar mesmo em meio a uma pandemia única em uma geração e a recessão econômica.

Com dezenas de grandes incêndios apenas na Califórnia na semana passada durante uma temporada de incêndios florestais sem precedentes, eles não são mais uma reflexão tardia para campanhas que, a 50 dias da eleição, normalmente seriam hiper-focadas em engajar eleitores em Estados indecisos como a Flórida, Michigan e Ohio, em vez de tratar dos desastres na Califórnia, Oregon e Washington, três Estados solidamente fincados na coluna democrata.

Para Trump, a crise é uma chance de mobilizar poderes federais para fornecer ajuda às pessoas durante uma corrida presidencial em que suas feridas auto-infligidas tornaram difícil aproveitar as vantagens do mandato.

Para Biden, os incêndios são uma oportunidade de acusar seu oponente de não fazer o suficiente para ajudar a combater os incêndios - ou para conter o aumento da temperatura global que os cientistas climáticos dizem que está alimentando os incêndios, uma questão que Biden colocou no centro de sua candidatura.

Trump programou uma viagem ao Parque McClellan, perto de Sacramento, depois de enfrentar as críticas por não abordar publicamente os incêndios.

Por dias, enquanto as chamas consumiam mais de 3 milhões de acres de terra na Califórnia, nem o presidente nem seu secretário de imprensa mencionaram o desastre que estava ocorrendo no outro lado do país.

Finalmente, na sexta-feira, Trump quebrou o silêncio para agradecer aos bombeiros e outros agentes que primeiro tentaram conter as chamas, para em seguida alardear os subsídios de combate a incêndios dados à Califórnia e outros Estados.

Ainda na sexta-feira, a Casa Branca estava dizendo que levar o presidente para uma área ainda em chamas "não seria sábio", mas mudaram a decisão no fim de semana.

Trump tem uma história de atacar a Califórnia - e o governador Gavin Newsom, democrata - e criticou o que ele considera o manejo florestal deficiente do Estado. Seu governo tem procurado facilitar a limpeza de vegetação rasteira para reduzir o risco de incêndio.

Embora décadas de políticas de supressão de incêndios tenham agravado as condições e deixado mais material para queimar, a maioria das florestas da Califórnia é administrada pelo governo federal.

Talvez sentindo a gravidade da destruição na Costa Oeste, a resposta de Trump aos últimos incêndios foi menos provocativa. Ainda assim, em um comício em Minden, Nevada, no sábado, Trump pediu a seus eleitores para “lembrar as palavras - muito simples - ‘manejo florestal’”, enquanto oferecia solidariedade às vítimas do incêndio.

Nos bastidores, Trump mobilizou mais de 26 mil funcionários federais e 230 helicópteros para ajudar a combater os incêndios na Costa Oeste, de acordo com o porta-voz da Casa Branca Judd Deere. Em vez de atacar o governador Newsom em um discurso retórico no Twitter, como fez em outra onda de incêndios em 2019, Trump vem falando com Newsom por telefone desde meados de agosto.

Biden está usando os incêndios para destacar a recusa de Trump em aceitar a realidade científica das mudanças climáticas causadas pelo homem. O candidato democrata fez um discurso em Delaware, ligando os incêndios florestais ao aumento das temperaturas. 

Em um comunicado no fim de semana, Biden disse que os incêndios florestais na Costa Oeste podem ser o início de uma "enxurrada interminável de tragédias" se o mundo não reduzir as emissões que causam o aquecimento global. Uma das principais estratégias de sua campanha é eliminar a poluição por carbono do setor de energia nos próximos 15 anos.

“A ciência é clara e sinais mortais como esses são inconfundíveis - a mudança climática representa uma ameaça iminente e existencial ao nosso modo de vida”, disse Biden. “O presidente Trump pode tentar negar essa realidade, mas os fatos são inegáveis.”

Durante uma recepção online com doadores em Chicago na quinta-feira, a vice na chapa de Joe Biden, Kamala Harris, comparou a confiança dela e de Biden nos cientistas com a de Trump, observando que sua mãe era bióloga. “Então, quando eu digo a você que há um contraste, sabemos que isso ocorre em muitos níveis.” Harris deve voltar para a Califórnia na segunda-feira, para se reunir com o pessoal do serviço de emergência.

“A Califórnia queima e as tempestades ficam mais fortes em nossas costas”, acrescentou a senadora da Califórnia. “A crise climática é impossível de ignorar.”

A campanha de Biden está reforçando o contraste com Trump, que embora pareça mais disposto a falar sobre os incêndios florestais, não está fazendo a conexão com as mudanças climáticas. Ao secar a vegetação, o aumento das temperaturas devido à atividade humana está fazendo com que os incêndios florestais no oeste cresçam e atuem de maneiras mais imprevisíveis, dizem os cientistas.

“Fale com um bombeiro se você acha que a mudança climática não é real”, disse o prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, do Partido Democrata.

* É repórter de política energética e ambiental do The Washington Post

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.