Incerteza antecede transição chinesa

Temendo cometer erros na busca pelo poder, futuros líderes evitam pistas sobre mudanças, em meio a retrocessos nas reformas econômicas e políticas

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2012 | 03h05

A China prepara-se para a transição de poder a uma nova geração de líderes incerta sobre o rumo a seguir. As reformas pró-mercado, pelas quais embarcou na globalização e se tornou a segunda maior economia do mundo, estão em um estágio de paralisia. Também há estagnação política. Nos últimos três anos, aumentou a repressão a dissidentes e conflitos étnicos com uigures e tibetanos agravaram-se.

Na mais importante troca de guarda em uma década, a atual geração de líderes comandada pelo presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao começará a sair de cena no fim do segundo semestre, quando o Partido Comunista realiza congresso para escolha de seu novo Comitê Central, encarregado de eleger os 25 nomes do Politburo, dos quais sairão os 9 integrantes de seu Comitê Permanente que detém o poder supremo da China.

Dois nomes já estão definidos desde o congresso anterior, realizado em 2007: Xi Jinping, provável sucessor de Hu Jintao, e Li Keqiang, que deverá assumir o lugar de Wen Jiabao. As outras sete vagas são objeto de feroz disputa interna entre as facções do Partido, sob forte interferência dos líderes atuais, que tentarão manter sua influência por meio da escolha de seguidores políticos.

Depois da era de homens fortes dominada por Mao Tsé-tung (1893-1976) e Deng Xiaoping (1904-1997), a China iniciou um período que privilegia a liderança coletiva dentro do Partido, na qual o presidente e o primeiro-ministro precisam do sinal verde dos outros membros do Comitê Permanente do Politburo para aplicar suas decisões.

"O líder máximo chinês, o secretário-geral do Partido e presidente Hu Jintao, é agora visto como não mais do que 'o primeiro entre iguais' nesse organismo supremo de decisão política", diz Cheng Li, do Brookings Institution em Washington.

Integrantes da chamada quinta geração de líderes, Xi Jinping, de 58 anos, e Li Keqiang, de 56, cresceram durante a Revolução Cultural (1966-1976) e passaram parte da adolescência trabalhando como camponeses, dentro da campanha maoista de enviar jovens urbanos para a zona rural.

Ambos deram poucas indicações do que pretendem fazer quando assumirem o comando do país. Enquanto nas eleições ocidentais os candidatos normalmente se elegem com a promessa de mudanças, na China o que conta é a defesa da continuidade e a habilidade de não cometer erros - ou dar declarações ousadas - na caminhada rumo ao topo do poder.

"Não está claro qual caminho a China seguirá no futuro", ressalta o economista americano Patrick Chovanec, professor da Universidade Tsinghua em Pequim. "Xi Jinping e Li Keqiang não mostraram suas cartas para não fazer inimigos antes de chegarem ao poder."

A grande incógnita é se ambos retomarão o processo de reformas econômicas e políticas, depois de anos de paralisia e até reversão em algumas áreas. "As reformas morreram", afirma o analista político independente Chen Zemin.

Revés. O ímpeto por mudanças perdeu fôlego em meados da década passada e foi freado com a crise financeira de 2008, da qual a China saiu relativamente ilesa graças a um pacote de estímulo que ampliou o poder do Estado na economia e fortaleceu as empresas do governo.

Parte dos líderes comunistas convenceu-se de que o modelo de capitalismo de Estado chinês é superior ao falido capitalismo ocidental, até então a fonte inspiradora das reformas que pregavam abertura e desregulamentação da economia.

A expectativa de mudanças políticas diminuiu a partir de 2008, quando conflitos étnicos chacoalharam o Tibete e Xinjiang.

O cenário piorou ainda mais em 2011, depois de convocação anônima para realização de protestos semelhantes aos ocorridos na Primavera Árabe. O Partido Comunista reagiu com uma onda repressiva que levou à detenção de dezenas de ativistas políticos e à condenação de alguns deles a penas de até 10 anos de prisão.

A resposta da China à crise global fortaleceu ainda mais as gigantescas empresas estatais. O slogan que passou a identificar esse movimento é: "O Estado avança e o setor privado recua".

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