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Incerteza na Europa

“Mas e esse Artigo 50?”. E por que o Reino Unido não o aciona? Isso lhe permitirá aplicar a “cláusula de saída”, ou seja, iniciar o processo de divórcio da União Europeia. Mas, não, o Artigo 50 permanece inerte. 

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2016 | 05h00

O voto dos britânicos foi claro: aprovaram o Brexit. Há três dias, todo mundo examina o Artigo 50, mas ninguém tem coragem de ativá-lo. 

Resultado: mesmo tendo o Reino Unido votado em favor do Brexit, o país ainda faz parte do bloco europeu. O silêncio observado pelas autoridades do país ilustra cruelmente a desordem que reina nas mentes dos eleitores britânicos. Esse grande povo caminha titubeante nas terras que acabou de devastar.

O silêncio impera em Londres. O premiê David Cameron, que tentou salvar a Europa provocando o referendo, está mudo como um morto. Seu amigo (antigo amigo) Boris Johnson, que liderou a campanha em favor da saída e sem dúvida sucederá a Cameron como primeiro-ministro, está ainda mais silencioso. Parece que a o Reino Unido perdeu a cabeça. 

Para descrever este momento bizarro da história britânica, jornalistas apelam às peculiaridades do “clima inglês”. O clima do Reino Unido é renomado: nebuloso, triste, sombrio, incerto e eternamente chuvoso. 

Alguns europeus chegam ao ponto de imaginar que o país, aterrorizado pelo seu gesto de rebelião, acabará recuando. Um diplomata francês em Bruxelas afirmou: “Quem quer que seja o futuro premiê, não creio que será estúpido o bastante para apertar o botão”. Inútil dizer que esse diplomata francês é ridículo: Londres apertará o botão e o Brexit será desencadeado.

Mas no caso dos europeus o céu também está complicado. Multiplicam-se as reuniões, as declarações, mas estamos longe de uma linha clara e comum. O eixo franco-alemão, já fragilizado há alguns meses, está cada vez mais torto. Os franceses, sempre impacientes, querem aproveitar o choque para repensar a Europa e pôr fim a essa mortal “política de austeridade” que Angela Merkel impôs a toda Europa.

Infelizmente, François Hollande não tem muita autoridade. Sua gestão deplorável dos problemas franceses o deixou desacreditado. Ele buscou o apoio do premiê italiano, o jovem Matteo Renzi, que não se intimida em criticar a “linha Angela”. As práticas de austeridade, declara, obstruíram o horizonte. Transformaram o futuro em uma ameaça e intensificaram o medo.

Outro ponto de divergência entre Merkel e Hollande é que o francês quer rapidez e insiste que os ingleses não percam tempo e iniciem de imediato o processo de divórcio, acionando o famoso Artigo 50. “Quando o casal não se entende mais, melhor se separar. E rápido!”

Nesse aspecto também, Merkel diverge de seu amigo francês. “Não vou fazer campanha por um calendário apertado. Não há razão para nos mostrarmos mesquinhos.”

Assim, o Brexit coloca à prova não apenas os britânicos que parecem por vezes assustados com o que fizeram. Observamos entre eles um embaraço, um nervosismo e uma angústia tão grandes como se evidencia no restante da Europa após o Brexit.

A partir desse rápido panorama, podemos concluir que as coisas a partir de agora, graças ao Brexit, estão claras: a Europa está cada vez mais confusa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


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