Incerteza no último território ''pacífico''

Violência cresce nas 2 regiões afegãs que nunca se submeteram ao domínio fundamentalista

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

A brisa que sopra do Rio Kokcha ajuda a aliviar o calor ao mesmo tempo em que produz um leve ruído quando atravessa as colinas e campos verdes da Província de Badakhshan, onde as montanhas de Hindu Kush e Pamir se encontram, no norte do Afeganistão. É como se alguém sussurrasse ao pé do ouvido. As notícias não são boas.

Homens barbudos, Kalashnikov à tiracolo e rostos escondidos sob turbantes negros, símbolo dos taleban, atacaram o quartel da polícia de Jurma, um distrito antes tranquilo à beira do Rio Kokcha, que liga o Vale Panjshir e Badakhshan - ironicamente, as duas únicas áreas do Afeganistão que nunca se renderam ao domínio dos radicais islâmicos.

Em um país mergulhado em conflitos, uma leve brisa pode anunciar a chegada de uma nova estação, mas também de uma nova campanha dos insurgentes. No inverno rigoroso do Afeganistão, os milicianos se retiram apenas para voltar mais fortes na primavera. E, este ano, eles estão se dirigindo para o norte. "Eles estão muito, muito perto", diz Tariq, consultor de segurança e gestão de risco para as tropas alemãs em Badakhshan.

De acordo com a ONG afegã Safety Office (Anso), 25% dos ataques de insurgentes no Afeganistão, no primeiro semestre, se concentraram nas províncias do norte e nordeste, contra 12% no mesmo período de 2010.

Sete distritos de Badakhshan (ou 25% da província) estão sob controle total ou parcial dos taleban. Segundo Tariq, são: Wurduj e Ragh Shahri Buzurg, na fronteira com o Tajiquistão; Kishima, um dos mais populosos e importantes distritos de Badakhshan, e os vizinhos Tagab e Tashka; Darayem, a apenas 40 quilômetros da capital da província, Faizabad; e Kuran wa Munja, onde os conflitos têm sido particularmente violentos.

Na fronteira com o Nuristão, área controlada pelo Taleban, Kuran wa Munja foi palco, no ano passado, do que ficou conhecido como o massacre de Badakhshan. Dez funcionários da ONG Missão Internacional de Assistência, oito estrangeiros e dois afegãos, foram mortos a tiros quando pararam para um piquenique nos arredores da Hindu Kush, depois de atravessar a pé e sobre cavalos 160 quilômetros para levar medicamentos a vilarejos remotos da região.

Seis dos estrangeiros assassinados eram médicos, entre os quais o oftalmologista americano Tom Little, que trabalhava no Afeganistão desde 1976. Homens de barba longa e tingida de vermelho - costume de algumas tribos pashtuns - cercaram o grupo e executaram um por um, segundo a polícia local.

Somente o motorista, Safiullah, escapou após implorar por sua vida recitando versos do Alcorão. Na época, o Taleban e o Hezb-e Islami (Partido Islâmico), grupo de Gulbuddin Hekmatiar, assumiram responsabilidade pelos ataques, acusando as vítimas de proselitismo.

Um mês depois, dois funcionários afegãos da organização humanitária Oxfam morreram em uma explosão em Shar-e-Buzurg, em Badakhshan. "Nessas áreas sem lei, grupos criminosos têm operado livremente e as organizações de ajuda humanitária correm sérios riscos de roubo e outros ataques", diz o relatório da Anso. "Eles sempre tentaram conquistar essas terras, mas, de alguma forma, só recentemente estão conseguindo", diz Tariq.

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