Inclusão de jovens desafia Tunísia após Revolução de Jasmim

Prestes a concluir transição democrática; país lida com a sombra do desemprego e da ameaça de radicalismo islâmico

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2014 | 02h03

No centro da Revolução de Jasmim, em 2010, os jovens representam hoje um dos maiores desafios à transição democrática na Tunísia, única bem-sucedida, resultante do levante popular que se alastrou pelo mundo árabe há quatro anos. Além do desemprego e da ameaça do radicalismo islâmico nesse grupo, a notícia de que mais de 3 mil jovens se juntaram ao Estado Islâmico deixou a Tunísia atônita e as autoridades sem explicação.

Analistas ouvidos pelo Estado disseram que a situação econômica desfavorável prejudica as mudanças no país e afeta jovens como Mohamed Bouazizi, que em 17 de dezembro de 2010, desempregado, imolou-se para protestar contra o sistema que o proibia de vender frutas numa banca na rua. Esse será parte do cenário que o próximo presidente, que será escolhido no segundo turno das eleições, em uma semana, enfrentará.

A economia da Tunísia sofre com inflação, alta taxa de desemprego, infraestrutura pobre e uma grande desigualdade entre as populações das mais ricas cidades do norte e da costa e o sul pobre, como explicou o cientista político tunisiano Larbi Sadiki, professor de Política do Oriente Médio da Universidade de Exeter (Grã-Bretanha). Combinado a esses fatores, o país lida com um fluxo diário de refugiados e armas da Líbia, além da incerteza causada pela performance fraca da economia de toda região do Oriente Médio e do Norte da África.

O combate à ameaça da radicalização islâmica é outro desafio nesse que é um dos países mais moderados do mundo muçulmano e já custa ao governo grandes quantias que poderiam ser investidas na economia doméstica, afirmou Sadiki.

A notícia de que mais de 3 mil jovens se juntaram aos radicais do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, segundo a pesquisadora Laryssa Chomiak, diretora do Centro de Estudos do Magreb, em Túnis, atormenta o país. Segundo Laryssa, ninguém consegue explicar o porquê. Na sua opinião, pode ser uma combinação de fatores, como a facilidade maior dos tunisianos para viajar. "Há um grande debate público sobre isso, porque é algo que o país nunca experimentou. Além disso, não sabemos se esses números são reais", disse.

Os analistas concordam também que, apesar dos problemas, a Tunísia merece os elogios por fazer uma transição para a democracia depois de uma ditadura de 23 anos de Zine El Abidine Ben Ali, derrubado 28 dias após o protesto de Bouazizi. "É raro ver um país sair de uma ditadura e ser capaz de ter relativa estabilidade para promover duas eleições livres e escrever uma das mais avançadas Constituições, não só do mundo árabe, mas em geral", elogia Laryssa.

As primeiras eleições deram o poder ao partido islâmico Ennahda e as segundas, ao secular Nidaa Tounes. O candidato do Nidaa, Béji Caid Essebsi, é o favorito e disputará o segundo turno com o atual presidente Moncef Marzouki.

Sadiki ressalta que a Tunísia está completando sua transição. "Em janeiro, a Tunísia terá presidente, governo e Parlamento novos, todos eleitos e governarão sob uma Constituição democrática", lembra o especialista, autor de vários livros sobre a transição em seu país. "Isso é um feito político espetacular para a Tunísia e para o mundo árabe, que nunca teve um modelo democrático 'crível'."

Sadiki destaca também a coexistência de partidos seculares e islâmicos. A tendência vai na contramão do que se tem observado em países onde a disputa de poder entre islâmicos e secularistas terminou em conflito e guerras civis, como Egito e Líbia. Os dois países, assim como a Síria, foram alcançados pela revolta popular, que ganhou o nome de Primavera Árabe, mas em ambos os casos, a transição não se concluiu e terminou e causou milhares de mortes.

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