AP Photo/Evan Vucci
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Incompetência é a melhor explicação para ações de Trump

A conclusão até o momento é suficientemente perturbadora: o presidente desempenha mal seu trabalho

Eli Lake / BLOOMBERG, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 05h00

Uma confirmação de que o presidente acusado de conluio está em apuros é que sua melhor linha de defesa seria alegar incompetência. O quadro é terrível. Depois de demitir o diretor do FBI, James Comey, que investigava a influência da Rússia na eleição americana, Trump, no dia seguinte, recebeu o chanceler russo no Salão Oval, e forneceu detalhes secretos sobre um complô do Estado Islâmico (EI) descoberto numa operação aliada de inteligência. Operações de inteligência compartilhadas estão sob risco de ser congeladas. Uma fonte pode estar em perigo. Esforços para desmantelar o EI podem ser prejudicados.

Além de mostrar a incompetência do presidente num assunto de segurança nacional, o erro também é politicamente embaraçoso para ele. Trump baseou parte de sua campanha presidencial no pressuposto de que Hillary Clinton não poderia ser presidente porque usara irresponsavelmente um servidor privado de e-mail para trocar informações sigilosas. A esta altura, Hillary deve estar pulando de alegria com a saia-justa em que o adversário se meteu.

Mas, além do que foi dito, é importante examinar friamente o caso. Vou fazer uma previsão: o compartilhamento de informações dos aliados com os EUA não vai acabar. Baseio-me no fato de que, nos últimos sete anos, houve situações graves nessa área. Aliados americanos foram expostos pelos telegramas do Departamento de Estado revelados pelo WikiLeaks e pelos documentos da NSA entregues a jornalistas por Edward Snowden. Nenhuma dessas histórias é comparável à perspectiva de um presidente compartilhando detalhes de inteligência com um adversário como a Rússia. Elas servem, porém, para lembrar que a comunidade de informações dos EUA já sofreu grandes danos, e seus relacionamentos sobreviveram.

Por último, as relações com a Rússia são complicadas. Se dependesse de mim, haveria uma quarentena contra Moscou e Putin, e seus carrascos seriam tratados como equivalentes diplomáticos do Ebola. Ex-presidentes dos EUA discordariam disso. Barack Obama, por exemplo, cooperou com a Rússia no controle de armas, no acordo com o Irã e em combate ao terrorismo, embora desafiasse Moscou na guerra cibernética e na questão da Ucrânia. Já na questão da Síria, Obama fez um pouco das duas coisas.

Na verdade, foi o último secretário de Estado de Obama, John Kerry, quem propôs em agosto um plano para compartilhar informações sigilosas com a Rússia sobre a Síria para forjar uma parceria no combate ao EI. Chefes militares americanos criticaram então a ideia de compartilhar tal tipo de inteligência com um país que bombardeava rebeldes apoiados pelos EUA.

Trump vem dizendo que quer parceria com a Rússia também sobre a Síria. É claro que é politicamente muito mais difícil para ele fazer isso quando sua campanha é investigada pelo FBI por ligações com Putin. Ficou ainda mais difícil depois da semana passada, quando Trump demitiu o diretor do FBI que chefiava a investigação.

Talvez venhamos mais tarde a saber que tudo isso não passou de uma grande jogada do Kremlin. Também é possível que o vazamento de informações sigilosas seja menos grave, uma simples gafe. Mas a conclusão até o momento é suficientemente perturbadora: o presidente desempenha mal seu trabalho. É um caso em que a estupidez beira o sinistro. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA

 

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