Jason Reed/Reuters
Jason Reed/Reuters

Indefensáveis fronteiras defensáveis

Para que os limites de um país possam ser protegidos, eles primeiro precisam ser legitimados e internacionalmente reconhecidos. Mas Binyamin Netanyahu não confia nos 'gentios' para esse reconhecimento das fronteiras de Israel

Shlomo Ben-Ami,

30 Maio 2011 | 20h23

A furiosa rejeição de Binyamin Netanyahu à proposta do presidente americano, Barack Obama, de usar as fronteiras de 1967 como base para uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino - fronteiras que ele chamou de "absolutamente indefensáveis" - reflete não só a fraca qualidade como estadista do premiê israelense, mas também sua filosofia militar antiquada.

 

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Numa era de mísseis balísticos e outras armas de destruição em massa, e em que o planejado Estado palestino será supostamente desmilitarizado, por que é tão vital para Israel ter seu Exército "acantonado ao longo do Rio Jordão"? Se tal primeira linha de defesa é realmente necessária, por que uma força internacional confiável não poderia realizar essa tarefa? E como centenas de assentamentos isolados espalhados em meio a uma população palestina hostil podem ser considerados um ativo estratégico?

 

Netanyahu talvez devesse ter estudado as lições da guerra do Yom Kippur de 1973 sobre as Colinas do Golan antes de questionar a ideia de Obama. Quando a guerra começou, a primeira coisa que o comando do Exército israelense procurou fazer foi retirar da área os assentamentos, que generais de Israel sabiam que rapidamente se tornariam um encargo impossível e um obstáculo para manobras de suas tropas. Aliás, a última guerra que Israel venceu "elegantemente" - da maneira que Netanyahu imagina que as guerras devam ser vencidas - começou das linhas supostamente "indefensáveis" de 1967.

 

Não foi por acaso. A ocupação por Israel de terras árabes nessa guerra, e sua subsequente mobilização de forças militares em meio à população árabe na Cisjordânia e perto das poderosas máquinas militares do Egito, no sul, e da Síria, no norte, o expuseram ao terrorismo palestino do leste. Ao mesmo tempo, a ocupação negou ao Exército de Israel a vantagem de um anteparo - as zonas desmilitarizadas que foram decisivas para a vitória de 1967 contra o Egito e a Síria.

 

Para fronteiras serem defensáveis, elas primeiro precisam ser legitimadas e internacionalmente reconhecidas. Mas Netanyahu não confia nos "gentios" para prover esse tipo de reconhecimento internacional das fronteiras de Israel, apesar de ter os Estados Unidos do seu lado e de Israel ter hoje a mais poderosa capacidade militar do Oriente Médio.

 

Filho de um renomado historiador que foi secretário pessoal de Zeev Jabotinski, o fundador da direita sionista, Netanyahu absorveu na infância a interpretação de seu pai da história judaica como uma série de tragédias. A lição era simples: não se pode confiar nos gentios, pois a história judaica é uma história de traições e extermínio nas mãos deles . O único remédio para nossa frágil existência na Diáspora está no retorno à Terra Bíblica de Israel. Nossos vizinhos árabes não merecem nenhuma confiança; daí que, como pregava Jabotinski, a nova nação israelense precisa erguer um muro de ferro de poder judaico para dissuadir para sempre seus inimigos.

 

Cumpre dizer que essa filosofia existencial não era monopólio da direita. O lendário general Moshe Dayan, que nasceu num kibutz socialista nas costas do Mar da Galileia, não era menos cético sobre as chances de coexistência com os árabes. Orador talentoso, foi assim que expressou um tributo a um soldado tombado em 1956: "Que não nos desanime a visão do ódio que inflama e enche as vidas das centenas de milhares de árabes que nos cercam. Não desviaremos nossos olhos a menos que nossos braços fraquejem... Este é o destino de nossa geração, esta é nossa opção de vida, estarmos preparados e armados, fortes e determinados, até que a espada seja arrancada de nosso punho e nossas vidas ceifadas... Somos uma geração de colonos, e sem o capacete de aço e o fogo do canhão, não poderemos plantar uma árvore nem construir um lar".

 

Mas o mesmo Dayan, que em 1970 disse que "as únicas negociações de paz são aquelas em que colonizamos a terra e construímos ... e de vez em quando vamos à guerra", foi forçado, pela dura realidade, a admitir que a melhor segurança a que Israel pode aspirar se baseia na paz com os vizinhos. Ele acabou por se tornar o arquiteto de uma paz histórica com o Egito. Seu livro Are We Truly Condemned to Live by the Sword to Eternity? (Estaremos realmente condenados a viver para sempre pela espada?) marcou a transformação do soldado em estadista.

 

Se Netanyahu quiser algum dia liderar uma reconciliação histórica com o povo palestino, ele terá de começar endossando um insight quase pós-sionista refletido no tributo de 1956 de Dayan. Perfeitamente ciente do legado amargo da privação palestina depois da guerra de 1948, Dayan recusou-se a culpar os assassinos. Ao contrário, ele compreendeu seu "ódio intenso".

 

Infelizmente, Israel tem hoje um primeiro-ministro com a mentalidade de um comandante de pelotão que ainda assim gosta de posar como um moderno Churchill combatendo as forças do mal dispostas a destruir o Terceiro Templo judeu. Um grande líder precisa ter, evidentemente, um senso de história. Mas, como disse o filósofo francês Paul Valéry, a história, "a ciência de coisas que não se repetem", é também "o produto mais perigoso que a química do intelecto já desenvolveu", especialmente quando manipulada por políticos.

 

Menachem Begin, um antecessor linha-dura de Netanyahu como primeiro-ministro, teve um dia a insolência de dizer ao grande historiador Yaakov Talmon que, "no que trata do século 20, sou mais experiente do que você".

 

Talmon respondeu com The Fatherland is Imperiled (A pátria está em perigo), um artigo seminal cujas conclusões são tão relevantes hoje como foram em 1981. Somente quando a ocupação terminar, Israel viver dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas e os palestinos recuperarem sua dignidade como nação, a existência do Estado judeu estará finalmente assegurada.

  

SHLOMO BEN-AMI, EX-CHANCELER ISRAELENSE, É VICE-PRESIDENTE DO TOLEDO INTERNATIONAL CENTER OF PEACE. AUTOR DE SCARS OF WAR, WOUNDS OF PEACE: THE ISRAELI-ARAB TRAGEDY (OXFORD USA)

 

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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