Indefinição política afegã prejudica paz e trabalho

Comerciantes reclamam de queda dos negócios e temem que retirada de tropas estrangeiras possa ocasionar uma piora da violência de insurgentes

CLÁUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL / CABUL, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2014 | 02h03

A loja de sapatos que Sayed Ahmad, de 21 anos, tem no principal bazar de Cabul viu seu movimento cair em 70% nos últimos quatro meses, em razão de um coquetel que reúne paralisia política, aumento da violência e redução da ajuda internacional para o Afeganistão. "As pessoas estão frustradas, principalmente os jovens. Não há emprego e não há paz", afirmou ao Estado.

Como ele, muitos comerciantes e empresários do Afeganistão se queixam do efeito da indefinição sobre o futuro do país sobre os seus negócios. Cinco meses depois do primeiro turno das eleições presidenciais, os afegãos ainda não sabem quem governará o país.

A incerteza política levanta dúvidas sobre a permanência das tropas estrangeiras no Afeganistão, vistas pela maioria como a garantia contra a crescente ameaça do Taleban e outros grupos insurgentes.

"A segurança está pior a cada dia. Vemos o Taleban nos quatro cantos de Cabul", disse Abdullah Afshari, de 33 anos, que há dez anos tem uma loja de tecidos na capital. Nos últimos meses, suas vendas caíram em até 90%. "A maioria não tem dinheiro. Quem tem dinheiro, não está gastando. Não há investimentos nem dinheiro estrangeiro."

Vários dos projetos de ajuda internacional que sustentam parte significativa da economia afegã começaram a ser suspensos a partir do ano passado, quando o presidente americano, Barack Obama, anunciou a intenção de concluir as operações de combate no Afeganistão em dezembro de 2014.

Haji Barat, de 42 anos, trabalhou um ano e meio com uma ONG para o desenvolvimento financiada pelo governo americano. Seu salário era de US$ 500 ao mês. Para sustentar oito filhos, ele fazia bicos nas folgas de fim de semana. Há cerca de um ano, a agência anunciou que o projeto seria concluído, o que levou ao fim do contrato de Barat e de outras 70 pessoas.

Muitos temem que a situação se agrave com o impasse político. "Sem a permanência das tropas internacionais, nosso destino pode ser o mesmo do Iraque", disse Yazdan Ali, dono de uma loja de material de construção. Há nove meses, Ali não vende nada para obras que recebem recursos externos.

Como a maioria dos afegãos, ele teme o eventual retorno do Taleban, cujos integrantes se refugiaram nas regiões tribais do Paquistão depois da invasão dos EUA ao Afeganistão, em 2001. De lá, o grupo foi capaz de organizar incursões no território afegão e ampliar a influência em algumas regiões do país..

A redução das tropas internacionais de 44 mil para 14 mil soldados a partir de dezembro eleva o risco de que o Taleban estenda a presença a outras áreas. Um ex-consultor dos EUA com uma década de experiência no Afeganistão disse que a situação de segurança é pior do que geralmente relatado. Sem uma definição política, não há garantia de permanência nem mesmo desse contingente reduzido, pois a manutenção de tropas depende da assinatura do futuro presidente em um acordo de segurança.

"Eu não sei o que vai acontecer amanhã, se vou estar vivo ou não", afirmou Ahmed Neder, de 18 anos, que ganha a vida vendendo cadernos e canetas em uma banca de rua no bairro Cuta , no oeste da capital afegã. "A insegurança aumentou de maneira dramática com a indefinição política. Não só a associada ao terrorismo, mas também à criminalidade", disse Neder.

O comerciante teve de deixar os estudos aos 13 anos para trabalhar. Nos últimos quatro meses, o movimento em sua banca caiu cerca de 50%, o que ele atribui ao impasse político que domina o país. "Não importa quem seja o vencedor da eleição. O importante é que nós tenhamos um governo."

Estudante de Economia na Universidade de Cabul, Lyaqt Letif, de 20 anos, quer que as tropas estrangeiras permaneçam no país, mas defende o fim das ações arbitrárias de revista nas residências e das prisões injustificadas. "Quando nós construirmos nossa economia, será o momento de eles irem."

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