Amr Nabil/AP
Amr Nabil/AP

Indefinição sobre resultado de eleição aumenta tensão política entre egípcios

Anúncio do presidente eleito está previsto para esta terça-feira

O Estado de S. Paulo,

18 de junho de 2012 | 21h18

CAIRO - Assessores do ex-premiê Ahmed Shafiq, candidato à presidência do Egito vinculado à junta militar, rejeitavam ontem reconhecer a vitória do candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi, na eleição do fim de semana. Resultados preliminares divulgados pela imprensa egípcia, incluindo a oficialista, indicam a vitória de Morsi. O resultado oficial só deve ser divulgado hoje. Os EUA pressionam a junta a entregar o poder ao vencedor.

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Ontem, a junta militar foi a público reafirmar o compromisso de transferir o governo ao presidente eleito antes de 1.º de julho. Um decreto constitucional provisório baixado pelos militares no domingo, porém, deu aos generais poderes de legislar e reduziu as atribuições do presidente.

Numa entrevista transmitida pela TV ontem, por mais de duas horas, os militares tentaram amenizar o impacto das medidas de exceção dos últimos dias, incluindo a dissolução do Parlamento eleito em janeiro - decidida na semana passada pela Suprema Corte.

Em meio ao cenário de tensão, o porta-voz de Shafiq, Ahmed Sarhan, disse que o ex-primeiro-ministro do ex-ditador Hosni Mubarak era o verdadeiro vencedor da eleição. Segundo ele, o general teria obtido entre 51 e 52% dos votos. O assessor ainda acusou a Irmandade Muçulmana de amedrontar eleitores durante a votação. "O outro candidato está ameaçando o futuro e a estabilidade do Egito", disse o porta-voz. Para os partidários de Shafiq, a Irmandade está fazendo pressão política para depois contestar a derrota.

Os votos estão sendo contados na frente das câmeras de TV. A apuração é verificada por fiscais de partidos e observadores internacionais. Eles concluíram que Morsi venceu por uma margem de 4 pontos porcentuais, o equivalente a 1 milhão de votos. Esses números coincidem com os divulgados ontem pela Irmandade Muçulmana.

Shafiq, no entanto, teria conquistado uma votação bem maior do que a de Morsi na região da capital, Cairo, expondo a profunda divisão do país entre os militares seculares e os radicais islâmicos da Irmandade.

Em discurso na sede de seu partido, Morsi procurou mostrar-se conciliador e afastar os temores de que implementaria a sharia, a lei islâmica, no país. "Buscamos estabilidade, amor e fraternidade para um Egito civil, democrático, constitucional e moderno", declarou. "Agradeço a Deus por liderar essa abençoada revolução. Ele guiou o povo egípcio ao seu caminho correto: o da liberdade e democracia."

As medidas de exceção tomadas pela junta militar foram criticadas pelos islâmicos. Deputados da Irmandade reuniram-se ontem na frente do prédio do Parlamento, que estava protegido por policiais. Segundo o partido, a Assembleia de 100 constituintes escolhida pelo Parlamento antes da dissolução se reuniria à revelia dos militares.

"É um jogo de xadrez", disse Jihad el-Haddad, conselheiro político do principal estrategista da Irmandade, Khairat el-Shater. "Eles moveram uma peça e agora é a nossa vez." Por volta do meio-dia de ontem, centenas de partidários do grupo se reuniram na Praça Tahrir, berço da revolta contra Mubarak, em fevereiro de 2011, para celebrar.

Promessas. Apesar da série de medida controvertidas, os militares pediram ontem um voto público de confiança. "Confiem nas Forças Armadas. Não queremos o poder", disse o general Mohamed el-Assar. "Nunca nos cansaremos de garantir a todos que entregaremos o poder até o fim do mês."

Os generais tentaram convencer o público de que não têm a intenção de manter o país, sob um controle militar que já dura 58 anos, em suas mãos. Os militares reduziram a importância do decreto de domingo e disseram que seu poder será "limitado". Apesar de reconhecer que tem o poder de redigir leis e controlar o Orçamento e as Forças Armadas, a junta argumenta que o presidente poderá aprovar ou vetar leis e nomear ministros.

Segundo El-Assar, os militares lamentaram o fechamento do Parlamento, para eles o maior feito da revolução que derrubou Mubarak até hoje. No passado, decisões similares levaram dias para serem cumpridas. A da semana passada levou horas.

Os generais também negaram informações da TV estatal, segundo as quais a junta nomearia os responsáveis pela redação da nova Constituição, em lugar do Parlamento eleito. "Isso ainda é prematuro", disse. El-Assar prometeu ainda uma grande festa para a posse do presidente eleito, mas evitou citar o nome de Morsi.

Pressão. Em Washington, o governo americano pediu aos militares que acelerem a entrega do poder aos civis. Tanto membros do Departamento de Estado, responsável pela diplomacia, quanto do Pentágono, responsável pelo setor de defesa, deram declarações nesse sentido.

Segundo o secretário de Imprensa do Pentágono, George Little, a dissolução do Parlamento e o anúncio de domingo preocupam o governo americano. "Os militares devem entregar o poder às autoridades civis e respeitar os direitos universais do povo egípcio", declarou Little.

Para a porta-voz do departamento de Estado, Victoria Nuland, este é um momento crítico para o Egito e o mundo está observando de perto. "Estamos particularmente preocupados com a decisão dos militares de prolongar sua presença no poder", disse Victoria. "As decisões deles terão impacto na nossa relação bilateral com o governo e o Exército."

Com informações de NYT, AP e REUTERS

 

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