EFE/José Jácome
EFE/José Jácome

Indefinição sobre segundo turno no Equador causa revolta e une oposição

Autoridades eleitorais equatorianas reconhecem atraso, mas prometem totalizar os votos até quinta-feira; presidente Rafael Correa e seu candidato, Lenín Moreno, admitem que vantagem pode não ter sido suficiente para liquidar disputa 

Luiz Raatz / Enviado Especial, Quito, O Estado de S. Paulo

20 Fevereiro 2017 | 21h51

A lentidão na apuração eleitoral no Equador uniu apoiadores de candidatos da oposição em protesto na sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) em Quito, Guayaquil e outras cidades. Na capital, cerca de 2 mil pessoas criticaram governo, Exército e CNE. Os últimos dados indicavam que a vantagem do governista Lenín Moreno sobre o opositor Guillermo Lasso levaria a decisão para o segundo turno.

Com 90,2% das urnas apuradas, Moreno tinha 39,1% dos votos e Lasso, 28,37%. Para vencer, ele precisa de 40% dos votos com vantagem superior a dez pontos porcentuais sobre o segundo colocado. Cynthia Viteri, do Partido Social Cristão, está em terceiro com 16,26% e o esquerdista Paco Moncayo é o quarto com 6,8%. Ela já declarou apoio a Lasso num segundo turno, enquanto Moncayo disse que não recomendaria o voto em ninguém. Partidos menores tendiam a apoiar Lasso. 

A região costeira, tradicionalmente crítica ao presidente Rafael Correa, votou em Moreno. As regiões andinas e amazônicas, antes leais ao governismo, optaram por Lasso, como projetavam pesquisas de intenção. Segundo o CNE, Moreno venceu na Província de Guayas, cuja capital é Guayaquil, Manabí, Esmeraldas, El Oro e Santa Helena, todas no litoral. Lasso levou a melhor em Cotopaxi, Chimborazo e Loja, nos Andes, e em Zamora Chinchipe, Pastaza e Orellana, na Amazônia. Pichincha, província onde está Quito, foi vencida por Moreno, embora Lasso tenha ganhado na capital. 

Foi em Quito que começou, ainda na noite de domingo, a insatisfação de parte da população com a demora na divulgação do resultado. No fim da noite, diversos eleitores de Lasso se reuniram diante da sede do CNE, na zona norte da cidade, para uma vigília. Nesta segunda-feira, 20, a manifestação cresceu e reuniu cerca de 2 mil pessoas. A sede da entidade foi cercada e protegida por soldados do Exército. 

Fraude. Vestidos com camisas da seleção equatoriana de futebol, bandeiras do país e adereços de campanha de Lasso, elas pediam a saída de Correa, a realização do segundo turno e a mobilização da população para pressionar o CNE. O perfil dos manifestantes era, em sua maioria, de classe média. 

O engenheiro Leonardo Droira, que havia chegado na noite anterior, prometeu não sair da frente do CNE enquanto a apuração não terminasse – o que deve ocorrer apenas na quinta-feira. “Passei a noite aqui porque quero me livrar do rato do Correa”, disse. “Não jantamos nem tomas café. Só água.”

A mulher dele, Josefina Droira, também passou a noite diante do CNE e acredita que houve fraude. “Dizem que há diversas urnas com votos já marcados para Correa em Manabí, onde houve o terremoto do ano passado”, disse. “Estava tudo armado.”

Hoje pela manhã, o presidente do CNE, Juan Pablo Pozo, disse em entrevista coletiva que a demora na apuração ocorria em razão de atas com irregularidades e da demora na chegada de votos de regiões de difícil acesso do país, como Esmeraldas e Manabí – de maioria governista – e províncias amazônicas favoráveis a Lasso, como Morona e Pastaza. Segundo Pozo, o procedimento é normal e a apuração, até então, vinha ocorrendo numa velocidade satisfatória. “Não é possível dizer se haverá segundo turno, porque a margem é muito estreita”, disse Pozo. “Não chegamos aos 100% da apuração porque há problemas nas atas.” 

Pela tarde, tanto Moreno como Correa, seu padrinho político, admitiram a possibilidade de enfrentar um segundo turno. “Ainda há mais de um milhão de votos em jogo. Temos de contar voto a voto para ver se isso se resolve no primeiro turno”, disse o presidente.

“Temos maioria absoluta na Assembleia Nacional, com 75 deputados. Se houver segundo turno, virão com a campanha suja de sempre.” Seu candidato também adotou um tom desafiador. “Ganharei no primeiro turno. Mas, se não for assim, estarei pronto para a campanha”, disse Moreno à Telesur. “Agora, somos eu e você, senhor Lasso.”

Apesar da projeção de Correa de que o Alianza País, partido governista, teria 75 deputados – o que deixaria seus aliados com a maioria simples, mas não a maioria qualificada que tem hoje – os dados finais da eleição para o Parlamento não foram divulgados. 

Correa governa o país desde 2007. Em seus dois primeiros mandatos, alinhou-se ao bolivarianismo, ao lado do venezuelano Hugo Chávez e do boliviano Evo Morales. No terceiro, adotou um tom mais pragmático.

 

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