REUTERS/Rafael Marchante
REUTERS/Rafael Marchante

Independentistas resistem, mas já não governam a Catalunha

Governador e vice depostos na sexta-feira pelo Senado espanhol tentam manter a normalidade, como se ainda estivessem no controle do governo regional; poder passa às mãos de Madri

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 05h00

BARCELONA - O movimento secessionista que declarou a independência da Catalunha na sexta-feira enfrenta hoje seu primeiro grande desafio: governar. Depostos pelas medidas de retaliação adotadas por Madri, o ex-governador Carles Puigdemont e seu vice, Oriel Junquera, pregaram no fim de semana a “resistência pacífica” e insinuaram que continuarão a trabalhar normalmente, apesar da intervenção. O problema: o governo já não existe mais.

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Menos de 72 horas após a declaração feita pelo Parlamento, também dissolvido por Madri, o movimento independentista tem poucos meios para continuar a administrar no dia a dia a Catalunha.

O comando da gestão interina foi assumido ainda no sábado pela vice-primeira-ministra da Espanha, Soraya Sáenz de Santamaría, e todos os secretários de Estado regionais foram substituídos por executivos da confiança do governo central. No Legislativo, a presidente do Parlamento, a independentista Carme Forcadell, foi mantida no cargo, mas seu poder é nenhum, já que a câmara foi dissolvida e não fará mais votações significativas até o final da legislatura, em 21 de dezembro.

Não se sabe nem mesmo se Puigdemont poderá ingressar hoje no Palau de la Generalitat, a sede do poder em Barcelona, já que o comando da polícia local, a Mossos d’Esquadra, foi substituído por um nome de confiança de Madri.

Ontem, durante protesto unionista em Barcelona, o Estado presenciou manifestantes hostilizando e entrando em atrito com policiais da Mossos d’Esquadra que fecharam o acesso às ruas que levam à praça do palácio de governo, um sinal de que a tensão continua presente e o ponto de conflito será em torno de quem ocupará a sede do governo nos próximos dias.

E, em meio às incertezas, as declarações de efeito continuaram. No sábado, em pronunciamento, e ontem, pelas redes sociais, Puigdemont apelou à “resistência pacífica” e à “força do povo” da República da Catalunha e ironizou a derrota do Real Madrid frente ao Girona, da cidade independentista de mesmo nome.

Já Junqueras publicou artigo no jornal El Punt-Avui no qual tentou reafirmar a autoridade do governo, mesmo que deposto. “O presidente do país é e continuará a ser Carles Puigdemont e a presidente do Parlamento continuará sendo Carme Forcadell, ao menos até o dia em que a cidadania decida o contrário em eleições livres”, afirmou, sem reconhecer as medidas adotadas pelo premiê da Espanha, Mariano Rajoy.

“Nos próximos dias teremos de tomar decisões e nem sempre serão fáceis de se entender”, advertiu Junqueras. Nem um dos líderes secessionistas, entretanto, especificou como pretendem governar se foram depostos e nem que medidas adotarão.

Em meio à confusão administrativa, uma primeira pesquisa de opinião relativa à eleição regional de 21 de dezembro mostrou um empate técnico e a profunda divisão da sociedade. Segundo a sondagem publicada pelo jornal El Mundo, partidos unionistas (pró-Madri) somam 43,4% das intenções de voto, contra 42,5% dos partidos separatistas.

Na última eleição, que levou Puigdemont ao poder, em setembro de 2015, os independentistas somaram 47,8% dos votos, mas em coalizão acabaram reunindo a maioria no Parlamento, com 72 votos, de um total de 135. Desta vez, os partidos unionistas negociam reunir-se em uma coalizão para assumir o controle da Catalunha.

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