Narinder Nanu/AFP
Narinder Nanu/AFP

Índia e China afirmam querer paz, mas culpam uma à outra por confronto na fronteira

Combates violentos na região do Himalaia marcam primeiro incidente bilateral com mortos em décadas

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 17h17

NOVA DÉLHI/PEQUIM - Índia e China afirmaram nesta quarta-feira, 17, que querem reduzir a tensão na fronteira, mas culparam uma à outra depois que tropas dos dois lados se enfrentaram selvagemente com porretes cravados de pregos e pedras na fronteira do Himalaia, matando ao menos 20 soldados indianos.

“Nunca provocamos ninguém”, disse o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, em rede nacional de televisão ao se referir ao combate corpo-a-corpo de segunda-feira. “Não deve haver dúvida de que a Índia quer paz, mas que, se provocada, a Índia dará uma resposta adequada.”

Em Pequim, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, disse que o confronto irrompeu depois que soldados indianos “cruzaram a linha, agiram ilegalmente, provocaram e atacaram os chineses, o que levou os dois lados a se envolverem em um conflito físico grave, lesões e morte”.

Ele disse não ter conhecimento de nenhuma baixa chinesa, mas a mídia indiana citou autoridades segundo as quais ao menos 45 pessoas foram mortas ou feridas do lado chinês. Zhao disse que a situação geral na fronteira se encontra estável e controlável.

Mais tarde, em um passo em direção à distensão, o ministro chinês das Relações Exteriores, Wang Yi, e seu colega indiano, Subrahmanyam Jaishankar, mantiveram uma conversa na qual ambos declararam concordar em manter a paz na região.

"As duas partes concordaram em lidar de maneira justa com os graves acontecimentos causados pelo conflito no Vale de Galwan", disse o ministério chinês, após a conversa dos dois ministros.

Pequim e Nova Délhi concordaram em "respeitar os consensos obtidos em reuniões militares entre as duas partes, apaziguar a situação no terreno o mais rápido possível e manter a paz e a tranquilidade nas áreas fronteiriças" acrescentou a diplomacia chinesa.

Segundo um acordo antigo entre os dois gigantes asiáticos que detêm armas nucleares, não se pode disparar tiros na fronteira, mas houve trocas de socos entre patrulheiros nos últimos anos.

De acordo com autoridades indianas, soldados foram agredidos com porretes cravados de pregos e pedras durante uma briga ocorrida no remoto Vale de Galwan, no alto das montanhas onde a região indiana de Ladakh faz divisa com a região de Aksai Chin, capturada pela China durante uma guerra em 1962. 

Segundo fontes do governo indiano, a luta irrompeu durante uma reunião para debater maneiras de apaziguar as tensões, e o coronel que comandava o lado indiano foi um dos primeiros a ser atingido e morto.

Os Exércitos rivais se encaram na fronteira há décadas, mas este foi o pior confronto desde 1967.

As tensões entre os dois países, que juntos somam 2,8 bilhões de habitantes, aumentaram nas últimas semanas ao longo de sua fronteira de 3,5 mil quilômetros, que nunca foi adequadamente delimitada.

No início de maio, os confrontos opuseram os militares de ambos os países na região de Sikkim, onde foram registrados vários feridos.

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As tropas da China também avançaram em áreas consideradas pela Índia como parte de seu território em Ladakh, o que levou o governo indiano a deslocar reforços para a região.

Em 2017, houve 72 dias de combates depois que as forças chinesas avançaram no disputado setor de Doklam, na fronteira entre China, Índia e Butão.

Modi, um nacionalista estridente, foi eleito para um segundo mandato em maio de 2019 após uma campanha concentrada na segurança nacional na esteira do acirramento das tensões com o velho inimigo Paquistão na fronteira oeste da Índia. A mídia enfática e a oposição fizeram grande pressão para que ele reaja agressivamente.

“Acabou a conversa depois do choque no Vale de Galwan, a China passou do limite”, escreveu o Times of India em um editorial. “A Índia precisa reagir.”/REUTERS e AFP 

 

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