Índia é o país com a maior quantidade de escravos no mundo

Mais de 14 milhões de pessoas vivem sob condições desumanas em território indiano, cerca de 1% da população

LONDRES, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2014 | 02h00

Manan Ansari tinha 6 anos quando foi escravizado com o pai em uma mina perto da vila onde viviam, no leste da Índia. Ele passou a infância dentro de túneis escuros cavados 300 metros abaixo do solo, viu um amigo morrer e ainda lida com problemas físicos decorrentes de anos sem luz e comida insuficiente. Aos 13 anos, após sete em cativeiro, ele foi resgatado pela ONG do Nobel da Paz Kailash Satyarthi e se mudou para um dos abrigos mantidos por ele.

Aos 18 anos, estuda direito em Nova Délhi e quer ser advogado para defender a causa. "Kailash é meu pai, um homem de grande alma. Graças a ele fui resgatado, mas as condições nas minas não mudaram. O mundo precisa fazer alguma coisa, porque toda criança deve ir para a escola e ter amor", disse Manan ao Estado. Ele é uma das faces da escravidão moderna, às vezes travestida de trabalho infantil.

A Índia tem o maior número de escravizados do mundo: 14,3 milhões de pessoas ou 1,14% da população, mas não são apenas os países pobres que mantêm a escravidão no século 21. Erguido sobre bilhões em petróleo, o Catar está entre os cinco países com maior proporção de escravos - ao lado de Mauritânia, Usbequistão, Haiti e Índia. A maioria é explorada na construção civil. O nepalês Deependra Giri lembra-se do frio, da escuridão e do cheiro de fezes no galpão onde foi mantido em cativeiro com outros 600 homens traficados para trabalhar em Doha. Durante dois anos, foi mantido em condições desumanas. Viu colegas caírem doentes e cometerem suicídio. Mais de 400 imigrantes nepaleses morreram em canteiros de obras no Catar desde que o país tornou-se sede da Copa do Mundo de 2022.

É uma tragédia invisível em parte graças ao preconceito e à segregação. Evelyn Chumbow foi vendida por um tio por US$ 2 mil e traficada para os EUA, onde foi escravizada por uma família de Camarões. Durante sete anos, foi mantida em cativeiro, espancada, violada e submetida a trabalho forçado.

"O endurecimento das leis de imigração só aumenta o tráfico, porque não há como barrar o fluxo e eles passam a entrar nas mãos de criminosos. É aí que o tráfico floresce", diz o auditor fiscal do Ministério do Trabalho em São Paulo, Renato Bignami, que esteve em Londres para falar sobre políticas brasileiras no tema. / A.C.

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