Rajesh Kumar Singh/AP
Rajesh Kumar Singh/AP

Índia enfrenta problemas com o fornecimento de oxigênio e pacientes de covid-19 ficam sem ar

A Suprema Corte ordenou ao governo do primeiro-ministro Narendra Modi que elabore um plano nacional de distribuição de oxigênio, enquanto o número de infecções por coronavírus continua a bater recordes

Emily Schmall / The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 19h56

NOVA DÉLHI - Hospitais e governantes da Índia enfrentaram problemas para adquirir oxigênio e outros insumos para atendimento médico de emergência nesta sexta-feira, 23, quando o país registrou outro recorde de infecções pelo novo coronavírus - e um crescente índice de mortes por covid-19 - que tem exaurido os recursos locais.

A Índia registrou mais de 330 mil novos casos da doença em 24 horas, afirmou nesta sexta-feira seu Ministério da Saúde, no segundo dia consecutivo em que o país estabeleceu um recorde mundial diário de novas infecções. O número oficial de mortes ocorridas na sexta-feira foi superior a 2,2 mil, também um novo recorde no país.

Cerca de metade dos casos registrados na capital, Nova Délhi, que tem mais de 20 milhões de habitantes, são de uma nova variante mais contagiosa do vírus, detectada na Índia pela primeira vez no ano passado, que aflige pessoas mais jovens, afirmou Sujeet Singh, funcionário do Ministério da Saúde.

Não está claro em que medida essa variante é responsável pela elevação nos casos de covid-19 no país, que tem sido palco de grandes aglomerações de pessoas sem máscaras e uma negligência generalizada em relação às medidas de prevenção - o que também podem ser apontado como causa.

Enquanto a catastrófica segunda onda de contágio por coronavírus se agrava entre os indianos, nesta sexta-feira o Canadá se juntou ao Reino Unido, Hong Kong, Cingapura e Nova Zelândia na proibição à entrada de pessoas vindas da Índia. O Departamento de Estado dos EUA aconselhou aos americanos evitar viagens para a Índia, após os Centros de Controle e Prevenção de Doenças elevarem o alerta de risco do país asiático ao nível máximo.

“A demanda por leitos hospitalares e insumos médicos esgotou a capacidade do sistema de saúde em muitas cidades, e o espaço de atendimento intensivo está criticamente limitado”, afirmou a agência americana.

Com a nova cepa mutante do vírus tomando conta de Nova Délhi, o governo da capital impôs um lockdown de uma semana, o que afastou do trabalho milhares de indianos que dependem do que ganham a cada jornada - muitos deles estão acampados nas margens do Rio Yamuna, onde sobrevivem das doações de comida que um templo sikh realiza duas vezes ao dia.

Em Maharashtra, um dos Estados indianos mais afetados pela pandemia, onde fica Mumbai, um incêndio em um hospital atribuído a um defeito no ar-condicionado matou pelo menos 13 pacientes de covid-19 na sexta-feira. Dois dias antes, pelo menos 22 pacientes morreram em um hospital na cidade de Nashik, também em Maharashtra, depois de um vazamento cortar seu fornecimento de oxigênio.

Encarando um mar de críticas à maneira que seu governo tem lidado com a segunda onda da pandemia, o primeiro-ministro Narendra Modi cancelou planos de viajar para Bengala Ocidental para participar de um comício político da campanha para as eleições que ocorrerão naquele Estado.

Mesmo com os casos atingindo novos picos, o governista Partido do Povo Indiano, de Modi, e outras legendas continuaram a organizar comícios que reuniram milhares de pessoas sem máscara. O governo também permitiu que um gigantesco festival hindu reunisse milhões de peregrinos, apesar de indícios de que o evento acelerava a disseminação do vírus.

“A liderança realmente importa. Vimos um relaxamento precipitado de medidas apropriadas. Os comícios eleitorais continuaram, e os festivais religiosos viraram eventos superdisseminadores”, afirmou Krishna Udayakumar, professor associado de saúde global e diretor do Centro Duke de Inovação em Saúde Global.

“Talvez tenhamos desperdiçado a oportunidade de aprender com a primeira onda”, afirmou Udayakumar.

Aquela onda inicial atingiu picos em agosto e setembro, meses depois de a Índia abandonar um lockdown nacional que prejudicou sua economia.

O desastre que consome a Índia agora é exibido vividamente nas redes sociais, com usuários do Twitter e grupos de WhatsApp transmitindo apelos de funcionários de hospitais por oxigênio e medicamentos e famílias desesperadas em busca de leitos em alas de tratamento de covid-19 lotadas. Com a falta de respiradores em muitos hospitais, as reportagens de TV mostram pacientes deitados em ambulâncias estacionadas diante de pronto-socorros com dificuldades para respirar.

Swati Maliwal, ativista e política em Nova Délhi, tuitou que sua avó morreu enquanto esperava atendimento do lado de fora de um hospital em Grande Noida, próximo da capital. “Fiquei meia hora de pé pedindo que ela fosse atendida e nada aconteceu”, escreveu ela. “Vergonha! Lamentável!”

Em 15 de abril, o Ministério da Saúde afirmou em um comunicado que a Índia tem capacidade diária de produção de 7,7 mil toneladas de oxigênio e contava com 55 mil toneladas em estoque. Nem todo esse oxigênio é destinado ao uso hospitalar - parte é usada na indústria, incluindo a enorme indústria siderúrgica do país.

Em 21 de abril, uma autoridade do governo disse ao Superior Tribunal de Nova Délhi que a demanda hospitalar tinha alcançado 8,8 mil toneladas por dia, o que superava a capacidade diária de produção.

O governo de Modi é responsável por alocar a produção nacional de oxigênio e, na quinta-feira, a Suprema Corte da Índia deu ao governo uma semana para apresentar um “plano nacional” de distribuição. O Ministério da Saúde foi incumbido de providenciar a importação de 55 mil toneladas adicionais de oxigênio.

É difícil armazenar e transportar oxigênio, e as fábricas do insumo na Índia geralmente ficam longe das principais cidades, neste momento abaladas pela súbita elevação nos casos.

Na quinta-feira, a Fortis Healthcare, uma das maiores redes de hospitais da Índia, tuitou uma mensagem de socorro a Modi e seu principal subordinado, Amit Shah, o ministro do Interior, implorando por mais oxigênio para um hospital no Estado de Haryana, que faz fronteira com Nova Délhi.

“Restam somente 45 minutos de oxigênio ao Fortis Hospital em #Haryana”, escreveu a empresa, pedindo a autoridade do governo “que ajam imediatamente para nos ajudar a salvar as vidas dos pacientes”. Quatro horas depois, o hospital recebeu um carregamento, tuitou a empresa.

Não ficou claro se todo hospital em necessidade crítica de oxigênio estava recebendo o insumo a tempo. Arvind Kejriwal, prefeito de Nova Délhi, afirmou que a cidade precisa de um fornecimento diário de 770 toneladas de oxigênio. O governo de Modi alocou 530 toneladas./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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