Índia flexibiliza lockdown e se prepara para possível aumento de casos da covid-19

Índia flexibiliza lockdown e se prepara para possível aumento de casos da covid-19

Crise econômica em razão do fechamento do país leva governo a mudar discurso sobre derrotar o novo coronavírus e dizer que a realidade será conviver com ele

Joanna Slater, Niha Masih, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2020 | 03h00

NOVA DÉLHI - Os comissários de bordo estão usando equipamento de proteção completo e alguns passageiros enfrentam a quarentena em seus destinos. Mas, pela primeira vez em meses, o céu da Índia está aberto. A retomada dos voos domésticos nesta semana é um sinal claro de que a Índia está se mobilizando para encerrar o maior lockdown do mundo, um experimento sem precedentes que afetou mais de 1,3 bilhão de pessoas. As restrições causaram perdas massivas de empregos, insegurança alimentar generalizada e um êxodo de trabalhadores das cidades da Índia.

Agora o país está se preparando para o que vem a seguir. Embora o lockdown tenha reduzido a velocidade da propagação do novo coronavírus, de acordo com os especialistas, o número de novos casos está aumentando. Com mais de 150 mil casos, a Índia ocupa a quarta posição no mundo em número de novos casos por dia, ficando atrás apenas de Rússia, Brasil e Estados Unidos.

Nas últimas semanas, o governo relaxou as restrições de movimentação, transporte, comércio e indústria. Grandes aglomerações continuam proibidas, assim como os voos internacionais. Mas especialistas dizem que relaxar as restrições levará o número de casos a aumentar em taxas mais rápidas. Isso intensificará a pressão nos hospitais que já estão à beira do limite e afetará o acesso aos cuidados de saúde em geral.

As duas maiores cidades da Índia - Mumbai e Délhi - estão se preparando para um aumento no número de casos. Em Mumbai, a cidade mais atingida do país, os leitos em algumas enfermarias de coronavírus já estão cheios e o governo local pediu a outro Estado que enviasse médicos e enfermeiros para ajudar. Em Délhi, as autoridades estão transformando outro grande hospital administrado pelo governo em um centro para pacientes com covid-19 e acabaram de ordenar que todos os hospitais particulares reservem 20% de seus leitos para esses casos.

"Vai ser uma bagunça", disse Jayaprakash Muliyil, um dos principais epidemiologistas indianos. Em uma cidade tão densamente povoada como Mumbai, "tentar controlar qualquer transmissão viral é quase impossível". Mumbai, a capital financeira da Índia, agora tem mais de 31 mil casos confirmados. "Nossas enfermarias ficaram completamente lotadas nas últimas três semanas", disse Lancelot Pinto, pneumologista do P.D. Hospital Hinduja, um grande hospital particular da cidade. "Tivemos que recusar pacientes."

Mudança de discurso

O governo da Índia mudou radicalmente sua abordagem em relação à pandemia. Em março, o primeiro-ministro Narendra Modi anunciou um dos mais rígidos lockdowns do mundo com aviso prévio de horas após o país ter registrado pouco mais de 500 casos. Ficar dentro de casa por 21 dias seria necessário para "quebrar a cadeia de infecção", disse ele, expressando confiança de que a Índia "sairia vitoriosa".

No entanto, quando Modi se dirigiu ao país este mês, as conversas sobre parar ou derrotar o vírus haviam desaparecido. O vírus "permanecerá como parte de nossas vidas por muito tempo", disse ele. Restrições seriam reduzidas, e grande parte das decisões seriam tomadas individualmente por cada estado.

A mudança é um reconhecimento da devastação econômica causada pela paralisação em um país onde há pouca rede de segurança social. A economia indiana deve encolher neste ano fiscal pela primeira vez desde 1980, e mais de 100 milhões de pessoas perderam seus empregos.

Oficiais do governo destacaram o fato de que o número de mortos na Índia permanece relativamente baixo, com 4.100 mortes registradas e uma taxa de mortalidade de 2,9%. Nos Estados Unidos, esse número é de 5,9%.

O bloqueio total deu à Índia um tempo crucial para se preparar sem enfrentar um número "esmagador" de infecções, disse V.K. Paul, um integrante do setor de planejamento do governo, em um briefing na semana passada. O país está "pronto para o próximo desafio", disse ele.

Paul se recusou a compartilhar previsões de quão rápido os casos aumentariam (no mês passado, ele compartilhou um gráfico indicando que eles diminuiriam). Um modelo desenvolvido por estatísticos e epidemiologistas da Universidade de Michigan prevê que a Índia terá quase um milhão de casos até 15 de julho, se houver uma retomada "cautelosa" da atividade após o lockdown.

"Na Índia, a curva não começou a descer", disse Bhramar Mukherjee, bioestatístico que lidera o projeto. "Adiou-se o pico."

Ainda há ceticismo quanto a se os números oficiais de casos e mortes capturam o verdadeiro alcance do surto. O país aumentou significativamente sua capacidade de teste nos últimos dois meses - agora realiza cerca de 110 mil testes por dia - mas em uma nação do tamanho da Índia, isso representa uma pequena porcentagem da população.

Testes

Os testes na Índia continuam "inadequados", acrescentou Sujatha Rao, que trabalhou como a principal autoridade do Ministério da Saúde do país. O estigma em torno da doença também representa um "sério impedimento" para que as pessoas sejam testadas nos estágios iniciais da doença, disse ela.

Os números nacionais obscurecem variações consideráveis na resposta à pandemia em um país tão grande. O estado de Kerala, no sul do país, mobilizou seu robusto sistema de saúde pública para rastrear, tratar e isolar pessoas cujos exames deram positivo para o novo coronavírus. O número de casos ativos no estado caiu para 16 no início deste mês. Mas os casos confirmados no estado estão aumentando mais uma vez, à medida que os moradores começam a retornar de outras partes da Índia ou por meio de voos especiais de repatriamento do exterior.

O vírus está expondo fraquezas conhecidas na infraestrutura precária de saúde da Índia, particularmente em hospitais administrados pelo governo, que são a principal opção para os pobres do país. Um comitê de juízes no estado ocidental de Gujarat disse recentemente que o principal hospital público para o tratamento de pacientes com covid-19 na cidade de Ahmedabad era "tão bom quanto uma masmorra, talvez pior".

O acesso à assistência médica - que pode ser um desafio para os pobres, mesmo em circunstâncias normais - está se tornando ainda mais difícil em alguns lugares. Durante o longo bloqueio total, muitos hospitais adiaram cirurgias eletivas e fecharam completamente os departamentos ambulatoriais para minimizar o risco de infecção. Alguns hospitais em Mumbai e Délhi suspenderam temporariamente algumas operações e pararam de receber novos pacientes depois que integrantes de sua equipe foram infectados pelo novo coronavírus.

Singh Pundhir vendia tratores na cidade de Agra, no norte da Índia, lar do Taj Mahal. O homem de 64 anos apresentava doença renal e necessitava de tratamento por diálise regularmente. Em abril, a clínica que lhe atendia foi fechada depois que casos de covid-19 foram diagnosticados nas proximidades, disse sua filha Akansha Pundhir. Alguns dias depois, ele acordou com dificuldade em respirar.

A família o levou a um hospital público próximo, que disse que não tinha condições para fazer a diálise. Um hospital particular disse para ele voltar mais tarde e solicitou um teste para garantir que ele não tinha covid-19. Mas já era tarde demais: Pundhir morreu em um carro estacionado do lado de fora do hospital. O resultado do teste deu negativo e chegou naquele mesmo dia, segundo a filha e um vizinho.

"Não podíamos acreditar no que estava acontecendo", disse Akansha Pundhir, 23 anos. "A gente acreditava que algum hospital iria fazer algo". A morte de seu pai era "completamente evitável". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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