Índia muda ênfase de desempenho estudantil para focar em felicidade

Em um país onde as melhores universidades exigem resultados médios acima de 98% e a trapaça nos exames finais do ensino médio é organizada por uma “máfia”, mudança pode inaugurar uma nova fase

Vidhi Doshi, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

24 Julho 2018 | 05h00

Após as férias de verão, as crianças de Nova Délhi voltaram à escola este mês e descobriram uma aula nova em seus horários: felicidade. Não foi uma brincadeira de boas-vindas. 

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Classe com 59 estudantes do ensino médio em Nova Délhi faz aula que mistura ioga, música e ética. Foto: Mansi Midha / The Washington Post

“Demos os melhores profissionais para a indústria. Temos sido bem-sucedidos. Mas temos sido capazes de formar os melhores seres humanos para a sociedade, para o país?”, disse Manish Sisodia, secretário da Educação de Délhi, a um estádio cheio de professores que participaram do lançamento do currículo das aulas de felicidade. 

As aulas de felicidade de Sisodia representam um experimento radical em um país conhecido por seu sistema rígido de instrução, que ajudou a consolidar uma nova classe média nas três últimas décadas, mas também é criticado por encorajar a aprendizagem mecânica e desencadear altos níveis de estresse. Muitos culpam tal sistema por uma onda de suicídios de estudantes.

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Filho de um professor, o ministro é conhecido por suas políticas pouco ortodoxas, incluindo a promoção do ensino público sobre a educação privada. Seu partido Aam Aadmi – fundado após um movimento anticorrupção em 2011 – aumentou os gastos nas escolas públicas de Délhi. A educação responde por 26% do orçamento da cidade este ano.

As mudanças valeram a pena – as escolas públicas de Délhi superaram as escolas privadas em exames padronizados nos últimos anos, embora um especialista tenha dito que os números gerais são distorcidos, pois os alunos de escolas particulares tendem a escolher disciplinas mais difíceis de matemática e ciências enquanto os de escolas públicas escolhem humanas. 

Sob o programa, 100 mil estudantes de Délhi passam a primeira meia hora sem abrir um livro, aprendendo através de histórias e atividades inspiradoras, bem como por exercícios de meditação. As crianças pareciam entusiasmadas quando as escolas reabriram este mês. “Deveríamos trabalhar felizes”, disse Aayush Jha, de 11 anos, recém-saído da primeira turma de felicidade. “Quando você trabalha triste, seu trabalho não fica bom.”

O professor de matemática Sonu Gupta contou à sua turma de alunos da 8.ª série sobre o que o físico Stephen Hawking conseguiu, apesar de ser portador de doença neurodegenerativa. No andar de cima, Santosh Bhatnagar, que ensina sânscrito, disse aos alunos de uma turma da 7.ª série que fechassem os olhos e imaginassem estar fazendo algo que os fizesse felizes. “Fiquei sabendo que você deveria aprender a ter fé em si mesmo e aqueles que tentam nunca falham”, disse Dipanshu Kumar, de 12 anos, na classe de Gupta.

Mas alguns professores não estão convencidos. De um lado, dizem, as escolas públicas estão muito lotadas para um currículo com base na integração em sala de aula. Outros duvidam que as aulas de felicidade possam mudar a ênfase culturalmente enraizada em exames e memorização.

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A iniciativa de Sisodia vem depois de quase três décadas de rápida industrialização na Índia. Para atender à demanda por mão de obra qualificada nas lucrativas novas indústrias do país, sucessivos governos formaram estudantes do ensino médio e universitários, mas permitiram que os padrões caíssem. Em 2009, um governo anterior introduziu uma política de não reprovação, que levou a salas de aula cheias de adolescentes avançando pela escola sem bem saber ler ou escrever.

Agora muitos, incluindo Sisodia, estão perguntando se o foco na questão do emprego sufocou a criatividade e frustrou o progresso social. “Se uma pessoa passa 18 anos de sua vida no nosso sistema educacional e está se tornando engenheiro ou funcionário público, mas ainda joga lixo no chão ou se envolve em corrupção, será que podemos realmente dizer que o sistema educacional está funcionando?”, ele me perguntou recentemente em uma entrevista em sua casa.

O entusiasmo de Sisodia pelas aulas de felicidade é inspirado no minúsculo vizinho indiano, o feliz Butão, que no início dos anos 70 foi pioneiro em um novo índice – “felicidade nacional bruta” – para medir seu desenvolvimento, como uma alternativa ao Produto Interno Bruto amplamente utilizado como indicador.

Em 2009, o Butão introduziu um currículo “impregnado de felicidade”, que chamou a atenção de políticos e ministros do governo numa época em que o mundo se recuperava da crise financeira e reexaminava os valores do capitalismo moderno, disse Alejandro Adler, diretor de educação internacional no Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia. Desde então, pelo menos 12 países, incluindo Peru e México, fizeram tentativas com aulas similares nas escolas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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