Francis Mascarenhas/Reuters
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Índia priorizou Brasil no fornecimento de vacinas, diz cônsul-geral

País asiático é responsável por 6 em cada 10 vacinas produzidas no planeta; 2 milhões de doses do consórcio Oxford-AstraZeneca-Serum Institute chegaram ao Brasil em 22 de janeiro e outros lotes estão em negociação para chegar em fevereiro 

Entrevista com

Amit Kumar Mishra, cônsul-geral da Índia em São Paulo

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 14h21
Atualizado 29 de janeiro de 2021 | 22h41

Maior produtor de vacinas do planeta, a Índia priorizou o Brasil para o fornecimento de vacinas contra a covid-19, afirmou o cônsul-geral do país em São Paulo, Amit Kumar Mishra.

Logo após ter distribuído doses de maneira assistencial a 9 países vizinhos como uma forma de proteger as próprias fronteiras e expandir sua presença na região do Sudeste Asiático, os indianos enviaram ao Brasil o primeiro lote de 2 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 produzidas pelo Instituto Serum, o maior fabricante de vacinas do mundo.

Apesar disso, o país frustrou os planos do Brasil ao não ter liberado as doses com antecedência - a expectativa do governo brasileiro era receber a vacina AstraZeneca/Oxford no domingo, 17. Na ocasião, o país asiático alegou "problemas logísticos" para liberar as doses, pois a vacinação na Índia começou em 15 de janeiro. Outros lotes estão em negociação e devem chegar ainda em fevereiro, mas o cônsul afirmou não ter dados da quantidade em negociação. 

Com capacidade para desenvolver 8,2 bilhões de doses de diferentes vacinas em um ano e responsável por 60% da produção mundial, a Índia continuará fornecendo vacinas contra a covid-19 a outros países nas próximas semanas e meses de maneira gradual. "Este fornecimento será calibrado de acordo com as necessidades domésticas e a demanda e obrigações internacionais", disse o cônsul representante do país de 1,4 bilhão de habitantes. Nesta quinta-feira, 28, o primeiro-ministro Narendra Modi anunciou que seu país aumentará a produção de vacinas para outros países.

O Brasil recebeu 2 milhões de doses da vacina vindas da Índia na semana passada. Qual o significado dessa parceria comercial para as relações bilaterais? 

O Brasil é o primeiro país para o qual o governo da Índia autorizou a exportação de vacinas da Oxford-AstraZeneca, produzidas no Serum Institute, contra o coronavírus (depois das doações da Índia a países vizinhos). A alta prioridade atribuída ao fornecimento de vacinas ao Brasil reflete nossas fortes relações e cooperação estreita na área de saúde. A Índia está junto com o Brasil na luta contra a pandemia covid-19. As empresas indianas também estão em conversas com o Brasil para suprimentos adicionais de vacinas contra o coronavírus.

Além de Brasil e Marrocos, quais países a Índia já assinou acordos para vender as vacinas? E com quem está fazendo negociações?

O governo da Índia recebeu vários pedidos de países vizinhos e parceiros importantes. Os suprimentos de vacinas em andamento são parte da iniciativa “VaccineMaitri” (palavra em hindi que significa amizade), sob a qual mais de 5 milhões de doses da vacina covid-19 foram fornecidas como assistência concedida ao Butão, Bangladesh, Nepal, Mianmar, Maurício, Maldivas e Seychelles. 

Outros países como Sri Lanka, Afeganistão e Jamaica também devem receber vacinas como assistência. Além disso, 9 milhões de doses da vacina foram entregues ao Brasil, Marrocos e Bangladesh em vendas comerciais. Vários países abordaram a Índia para a compra comercial de vacinas manufaturadas indianas, e isso inclui países desenvolvidos e em desenvolvimento de todo o mundo. Suprimentos comerciais devem ser enviados para a Arábia Saudita, África do Sul, Mianmar e Sri Lanka nos próximos dias.

Que ganhos a Índia busca com esta 'diplomacia de vacinas', especialmente com foco nas doações aos seus vizinhos como Mianmar, Bangladesh e Butão?

O fornecimento de vacina a países em todo o mundo reflete os valores indianos de Vasudhaiv Kutumbakam (em hindi, 'o mundo é uma família'). O foco nos países vizinhos é natural dada nossa estreita cooperação na luta contra a pandemia covid-19 (o país tem fronteiras amplas com Nepal, Butão e Bangladesh).

Desde o início da pandemia, a Índia tem trabalhado com os países do Sul da Ásia com iniciativas como treinamento de profissionais de saúde, criação do Fundo de Emergência covid-19 e uma plataforma de intercâmbio de informações. Antes da entrega das vacinas, a Índia conduziu um programa de treinamento para agentes de imunização, oficiais que trabalham na cadeia de frio e armazenamento, oficiais de comunicação e gerentes de dados nos países vizinhos, tanto em nível nacional quanto provincial.

Isso pode ser visto como uma ferramenta diplomática para conter a crescente influência da China no Sul da Ásia?

Nossos suprimentos de vacinas para países parceiros não devem ser vistos pelas lentes da geopolítica. A Índia está bem ciente de sua responsabilidade para com a comunidade global como "a farmácia do mundo" e como o maior produtor mundial de vacinas.

Em seu discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas em 2020, o primeiro-ministro Narendra Modi prometeu que a produção e distribuição de vacinas da Índia serão usadas para ajudar toda a humanidade no combate à crise.

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A Índia está agora cumprindo essa promessa fornecendo vacinas aos seus vizinhos e países parceiros em paralelo com a implementação do maior programa de vacinação do mundo para seus próprios cidadãos. 
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Qual é hoje exatamente a capacidade de produção de vacinas da Índia? 

A Índia é um dos maiores produtores mundiais de vacinas, com participação de 60% da produção global. A Organização Mundial da Saúde fornece 70% de suas vacinas de imunização essenciais da Índia. As empresas indianas fornecem 1,5 bilhão de doses anualmente para mais de 150 países. A Índia é o maior fornecedor global de vacinas DPT (vacina tríplice), BCG e sarampo.

Os principais fabricantes indianos de vacinas são o Serum Institute, a Bharat Biotech, a Panacea Biotech, a Sanofis Shanta Biotech, o Biological E, o Hester Biosciences e o ZydusCadila. Essas empresas têm capacidade instalada para fabricar 8,2 bilhões de doses de diferentes vacinas em um ano. O Serum Institute, com sede em Pune, é o maior fabricante de vacinas do mundo em número de doses produzidas e vendidas globalmente.

Como está a reação do público na Índia, já que o país não tem vacinas para toda a sua população, mas está exportando para outras?

Em 16 de janeiro de 2021, o primeiro-ministro lançou a vacinação contra a covid-19 na Índia, a maior campanha do mundo. Dos 30 milhões de trabalhadores da linha de frente a serem atendidos na primeira fase, cerca de 23 milhões já foram vacinados. A próxima fase incluirá a vacinação de 300 milhões de pessoas. O governo da Índia está garantindo que os fabricantes nacionais terão estoques adequados para atender às necessidades domésticas enquanto fornecem no exterior.

A Índia continuará a fornecer vacinas contra a covid-19 a outros países nas próximas semanas e meses de maneira gradual. Este fornecimento será calibrado de acordo com as necessidades domésticas e a demanda e obrigações internacionais, incluindo as instalações Covax/GAVI (aliança global para garantir vacinas e imunização a países em desenvolvimento organizada pela Organização Mundial da Saúde e parceiros).

Quantas vacinas estão sendo produzidas e podem ser testadas nos próximos meses? A Covaxin, desenvolvida e fabricada localmente pela Bharat Biotech, será uma possibilidade de exportação até o final de 2021?

Há cerca de 30 grupos acadêmicos e industriais trabalhando no desenvolvimento e testes de novas vacinas. Há seis vacinas candidatas, incluindo três produzidas localmente em estágios clínicos de desenvolvimento. Outras três estão em estágio pré-clínico avançado de desenvolvimento. Em 2 de janeiro, duas vacinas Covishield (Oxford-AstraZeneca-Serum Institute) e a primeira vacina da Índia, a Covaxin (do Bharat Biotech International e do Conselho Indiano de Pesquisa Médica) receberam autorização para uso de emergência. 

Os ensaios clínicos da fase 3 (decisiva) para a Covaxin estão em andamento e a vacina deve estar disponível para exportação em um futuro próximo. A Bharat Biotech também fechou contrato com a empresa brasileira Precisa Medicamentos para o fornecimento de 12 milhões de doses de Covaxin. Então, podemos esperar o fornecimento para o Brasil e outros países após a conclusão dos ensaios clínicos e aprovações regulatórias necessárias.

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